Diálogo nos Relacionamentos: Sobre Jogar Tênis ou Frescobol - Ciclos - Espaço Terapêutico
Diálogo nos Relacionamentos: Sobre Jogar Tênis ou Frescobol

Lidar com a diferença a partir de um ponto de respeito profundo é uma arte. 

Um tema complexo que aparece na clínica em diferentes conflitos refere-se a relacionamentos pessoais: 

Em amizades causam intensas reações de cumplicidade e em outros momentos decepções – que geralmente implicam em aprendizagem sobre alteridade: enxergar o outro diferente da forma que eu vejo o mundo e, portanto, atuo no mundo. 

Nas relações profissionais ouvimos relatos sobre as dificuldades em equipe ou hierarquia no trabalho. 

Quando as relações são familiares... a complexidade aumenta!  Tanto com a família nuclear que exige diferentes compreensões e tolerâncias necessárias no decorrer da vida até o desenvolvimento na relação com os filhos e as relações conjugais. 

Dado que a linguagem simbólica ajuda a ampliar e reeditar nossa forma de lidar com as situações cotidianas, vamos ilustrar a função do diálogo na brilhante metáfora de uma crônica de Rubem Alves: o diálogo representado no jogo de tênis e no jogo de Frescobol. 

Boa Leitura!

 

Diálogo nos relacionamentos:  Sobre Jogar Tênis ou Frescobol

Autora: Daniela M. Fuschini Favaro

 

Todo atendimento clínico parte de uma queixa.

Algo que está incomodando, que está desencaixado, que de algum modo se apresenta disfuncional na vida da pessoa.   Às vezes são aspectos do autodesenvolvimento:  autoestima, autoconfiança, lidar com um evento traumático da história de vida, ou compreender o desenvolvimento de algum sintoma psicossomático. 

A queixa ocupa o espaço da fala nas primeiras sessões de psicoterapia e precisa ser acolhida até esvaziar.  Mas queixar é fazer barulho, é precisar esvaziar.  Ainda não é mobilização para compreender o que está acontecendo nem iniciar o processo de resolução do problema. 

Quando damos o passo para refletir sobre o que está acontecendo iniciamos a fase de imersão na demanda da questão a ser resolvida. 

Demanda é a necessidade essencial de algo.  Exige a ampliação de pensamento sistêmico, como se conseguíssemos nos distanciar do problema e dar um giro de 360° para voltar à situação com um ponto de vista diferente.

Importante destacar que um ponto de vista é sempre e apenas a vista de um ponto!

Invariavelmente no setting terapêutico esta é a interlocução entre paciente e terapeuta:  esvaziar a queixa / aceitar o convite para analisar diferentes perspectivas sobre a demanda do que está acontecendo / tecer possibilidades de análises sobre a postura da outra pessoa envolvida na situação e tecer as possibilidades dentro de si mesmo a partir da ampliação dos pontos de vista / voltar à situação - pensar nas estratégias com a clareza da comunicação necessária.  O primeiro passo para o diálogo consciente segue um simples roteiro:

  • O que desejo pontuar: focar no que é fundamental deixar claro ao outro
  • Por que é importante que compreenda este ponto: clareza sobre os desdobramentos positivos a partir desta compreensão.
  • Como e quando pontuar:  Muitas vezes ao chegarmos no ponto da aplicação da comunicação há muita dificuldade em visualizar o diálogo acontecendo de forma fluida.  Neste momento entra em cena a arte do diálogo e a metáfora brilhante de Rubem Alves. 

 

Em seu livro Retorno e terno (1992) Rubem Alves apresenta uma série de crônicas sobre relacionamentos e casamento.  Na clínica utilizo a crônica Tênis X Frescobol sempre que preciso ilustrar a arte da comunicação nos relacionamentos que possuem alguma tensão instalada. 

Rubem Alves (1992, p.51) toca no assunto do diálogo no casamento – que podemos aplicar a outras esferas de relações que necessitem de muito diálogo. 

Nas observações do autor há dois tipos de casamento: os do tipo tênis e os do tipo frescobol. 

A princípio os dois jogos se parecem muito em seus elementos. 

A bolinha: Presente em ambos representará o diálogo, a palavra expressa e direcionada ao outro ao arremessar a bola. 

Raquetes:  cada participante dos jogos possui uma raquete. 

Fim das semelhanças! A partir daqui torna-se distinto jogar tênis ou frescobol!

O tênis exige uma quadra, uma rede no meio que demarca os territórios de cada jogador.  Ao pisar na quadra, tornam-se adversários.  Ao decidir quem faz o primeiro “saque” – ou seja, quem arremessará a primeira bola, a primeira palavra, tocar no assunto desconfortável que precisa ser arremessado. 

Quem recebe a bola sacada no território adversário fará um esforço para alcançar a bola e devolvê-la.  Assim segue o jogo, onde notamos acrobacias, técnicas, foco em atingir a bola de modo a dificultar para o adversário ter êxito em fazer sua jogada. 

O objetivo dos adversários de tênis é conseguir marcar pontos, conquistar vantagens para o próximo saque, vencer games, partidas, valendo ranking classificatório. 

 “O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada - palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.” (ALVES, 1992, p. 52)

 

Para Rubem Alves, “Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal.” (ALVES, 1992, p. 51)

Nos diálogos de estilo tênis não há vencedores! Mesmo quem “ganha” sempre perde. 

 

Por outro lado, no diálogo em estilo frescobol temos a bolinha, as raquetes e os jogadores – que não são adversários!

Não necessitamos de quadra ou rede.  Podemos jogar frescobol na praia, no gramado do parque, na rua ou no quintal de nossa casa. 

A intenção do jogo de frescobol é passar um tempo juntos, ludicamente, jogando a bolinha (do diálogo) para lá e para cá. 

Passarmos um tempo juntos trocando bolinhas, ideias, compartilhando uma cumplicidade. 

Quais esforços observamos em um jogo de frescobol?  Cada jogador se estica todo, se esforça para devolver a bola (palavra) ao outro... em movimentos e ângulos que facilitem ao parceiro jogador alcançar a bola.  Se lançamos mal: pedimos desculpas... o outro pega a bola (palavra) e reinicia o movimento.  Bolinha para cá, bolinha para lá. 

Este movimento lúdico, essa parceria gostosa pode ser chamada de diálogo saudável em um relacionamento.

 

Rubem Alves (1992, p. 51) afirma:

 “Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.”

Analisamos sempre a dificuldade de dialogar com este paradoxo:  convidar o outro para jogar frescobol e a partida virar jogo de tênis. 

Ao convidar para o frescobol, arremessamos o convite para algo ser compartilhado, expressado por um e depois pelo outro.  Trocar ideias, pontos de vista e contrapontos nas divergências. 

Diálogos que começam no clima de tênis sacam a bola.

Sacar nos remete a outras correlações, equivalente a sacar uma arma e atirar.  Ser bola, ou bala parece similar quando se joga tênis.  Sempre um ato contra o outro.  Ou para adquirir “uma vantagem” sobre o outro, marcar ponto e subir em um ranking onde ninguém ganha em termos de relações saudáveis. 

A arte da conversa, da comunicação assertiva clara e positiva nos posicionamentos faz a diferença para se jogar frescobol! Rubem Alves faz uma provocação:  antes de unir seu projeto de vida a alguém deve fazer apenas uma pergunta!

Creio ser capaz de conversar com prazer com esta pessoa até minha velhice? - tudo em um casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são as construídas sobre a arte de conversar!

A palavra falada, na metáfora do poeta Rubem Alves pode ser vista como bolha de sabão... nos estilos tênis tenta-se estourá-la e nos diálogos em estilo frescobol é diferente:

 “(...) o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem - cresce o amor... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...” (ALVES, 1992, p. 53)

 

 Referência Bibliográfica:

 ALVES, R., O retorno e terno. Campinas: Papirus Editora, 1992.  p. 51.

 

Sobre a autora:

Daniela M. Fuschini Favaro é psicóloga, gestora da clínica CICLOS - Espaço Terapêutico.

Especialista em Logoterapia aplicada à Educação, com título reconhecido pelo MEC de especialista em ensino superior. 

Integra o corpo docente da pós graduação do IECVF - Instituto de Educação e Cultura Viktor Frankl de Ribeirão Preto/SP.  

Atua na área fenomenológica de base humanista e existencial, sendo Viktor Frankl e Carl Jung autores de referência em sua formação. Mais informações, consulte  Corpo Clínico / Psicologia neste site.

Trabalha com Orientação Profissional desde 1994, desenvolvendo metodologia de pesquisa de profissões que configura o material utilizado pela equipe da CICLOS - OP.

Especialização em Gestão de Pessoas:  Carreira, liderança e coaching

 

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