Elefante Amarelo: um conto zen - Ciclos - Espaço Terapêutico
Elefante Amarelo: um conto zen

A mente humana tem um funcionamento típico:  através da percepção das situações da realidade passa a construir linearidades.  Exemplos:  ser jovem, ser saudável, “ter” uma relação duradoura. 

Estas linearidades, por sua vez, nos levam a ILUSÕES DE CONTROLE e consequente sofrimento quando esta linearidade projetada “não se cumpre”.

O conto do elefante amarelo é uma anedota zen.  Com o humor característico do oriente, somos convidados a rir de quantas vezes já passamos por isso. 

Divirta-se!

Daniela Favaro

 

Elefante amarelo

Autora: Daniela Medeiros Fuschini Favaro

Em um mosteiro - que ficava isolado no alto de uma cadeia de montanhas - havia um discípulo de destaque, que sempre demonstrara elevada força de vontade, persistência e dedicação - atitudes que sempre foram muito elogiadas pelos seus mestres.

Um dia, o mestre dos mestres chamou o discípulo e disse: 

– Tenho observado seu progresso e você parece-me pronto para tornar-se mestre.

O discípulo, surpreso, sentiu grande alegria e demonstrou muita humildade e gratidão por este elogio.  Mas sabia que sempre havia uma última tarefa para de fato todos se tornarem mestres.  Aguardou qual seria a sua. 

O mestre então anunciou:

– Encontre-me na torre leste, exatamente ao pôr do sol e passarei sua nobre tarefa – que, se cumprida, o conduzirá à honra de tornar-se mestre.  Antes de me encontrar ao pôr do sol, prepare-se! Já sabe tudo o que é necessário fazer. 

O discípulo agradeceu e foi para seus aposentos.  Sendo uma pessoa que gostava de planejar meticulosamente suas ações, já imaginou que esta grande tarefa seria feita em uma noite de vigília... então passou a fazer os alongamentos, respirações e o descanso na medida para conseguir manter toda a atenção na tarefa.  Também cuidou de sua alimentação e separou uma roupa confortável e adequada para a ocasião.

Na hora exata, mestre e discípulo encontraram-se na torre leste ao pôr do sol.

O mestre anunciou ao atento discípulo:

– Sua tarefa será:  passar a noite em claro...

E o discípulo pensou: – Ótimo! Já o fiz muitas vezes! – sentiu muita confiança sobre o sucesso iminente.

Continuou o mestre:

–  Poderá utilizar todas as técnicas e aprendizagens destes anos de formação no mosteiro e APENAS... não pensará em ELEFANTE AMARELO.

O mestre sorriu satisfeito com os olhos brilhando de incentivo ao mesmo tempo que o discípulo tentava organizar os pensamentos, ainda confuso sobre sua GRANDE tarefa. 

–  Mestre... compreendi bem? Minha tarefa será APENAS não pensar em ELEFANTE AMARELO? O que mais?

E o mestre respondeu: 

–  Compreendeu tudo.  APENAS não pense em ELEFANTE AMARELO.  Amanhã, pontualmente ao nascer do sol virei ao seu encontro.  Conversaremos sobre sua tarefa e, caso tenha conseguido realiza-la, iremos direto à cerimônia que está sendo preparada para comemorarmos seu título de mestre.  Tenha uma boa noite. 

O mestre fez uma respeitosa reverência, à qual o discípulo respondeu e retirou-se.

O discípulo precisou de alguns minutos para organizar seus pensamentos e notou, rapidamente, uma certa decepção com a singela tarefa.  Após tantos anos de dedicação e tantos elogios recebidos, sentia-se deveras frustrado com a tarefa que lhe fora dada. 

Momentos depois deu-se conta de que uma grande virtude dos mestres era a humildade e simplicidade.  Um sorriso abriu-se em seu rosto e pensou:

– Ahhh... então É ISSO!  Que prepotência a minha a essa altura achar que apenas GRANDES tarefas são importantes.  Sim... nas pequenas tarefas descobrimos nosso valor. 

Encerrada a pequena deliberação interna, começou os preparativos para dar conta de sua incumbência.  Fez uma série de alongamentos, respirações cadenciadas, exercícios de foco e concentração.  Sentou-se em postura de lótus e... ELEFANTE AMARELO lhe veio à mente. 

Imediatamente o discípulo utilizou uma técnica muito eficaz para esvaziar sua mente e... em poucos minutos... ELEFANTE AMARELO apareceu em sua mente. 

Intrigado, mas achando um pouco divertido - afinal o animal ficava muito peculiar com esta cor -, concentrou-se agora com mais energia para esvaziar a mente de qualquer pensamento.

Para sua surpresa, ELEFANTES AMARELOS em um desfile surgiram do nada. 

Já sem tanto senso de humor, o discípulo começou a achar que sua mente estava lhe pregando peças... sentiu-se desafiado e concentrou-se... pensou em outras paisagens, mas em breve um elefante amarelo era incorporado aqui e ali.

Mudou o contexto e tentou mantras... ELEFANTE AMARELO surgiu do nada! Ahhh não! Agora passara dos limites.  Então mudou as estratégias, mudou as técnicas, foi utilizando tudo o que conhecia...

Elefante amarelo, elefante amarelo, elefante amarelo e elefante amarelo... desfilavam em sua mente, apareciam atrás de cenários, apenas espiando, flutuavam como balões. 

O discípulo deu-se conta de que mais da metade da noite já se passara, mas não se deu por vencido.  Continuou sua batalha contra os elefantes amarelos alternando absolutamente todos os recursos que aprendera em sua vida, até amanhecer o novo dia.

No horário exato do nascer do sol, o mestre dos mestres já entrava na torre leste com seus passos curtos e leves, com olhar e sorriso serenos.  Sentou-se de frente ao discípulo e indagou:  – Conte-me como foi sua noite.  Todos os detalhes.  – fechou os olhos e continuou sorrindo. 

O discípulo estava arrasado.  Olhos fundos, a própria imagem da decepção consigo mesmo.  Começou seu relato:  descreveu as técnicas físicas e mentais que utilizou para executar a simples tarefa que lhe fora confiada e as sucessivas falhas, pois o ELEFANTE AMARELO apareceu das formas mais inusitadas em todas as tentativas.

Quando descrevia alguma técnica, o mestre sorria mais e comentava vez ou outra: – Nossa!  Desta eu mesmo não me lembrava mais! Muito bom, muito bom!

Quando o discípulo terminou de descrever em detalhes tudo o que se passou durante sua tarefa, estava com uma postura cabisbaixa e envergonhada e, evitando olhar para o mestre, declarou: - Sinto muito decepcioná-lo, mestre! Fracassei totalmente na tarefa que me confiou.

Neste momento, justamente por evitar o olhar do mestre, o discípulo não pudera perceber o sorriso radiante que o mestre ostentava no momento em que abriu os olhos e anunciou: 

–  Vamos! Passe agora uma água neste rosto! Recomponha-se! Pois iremos imediatamente para o ritual em que se tornará mestre!

Totalmente espantado, o discípulo arregalou os olhos para o mestre e disse: 

–  Mas... mestre... não compreendeu tudo o que acabei de contar? Eu falhei e falhei até o sol nascer!  Não cumpri a tarefa!

– Caro discípulo... – respondeu o mestre – após todo o estudo, treino e aprimoramento das técnicas que existem, a última tarefa reside apenas em um ponto:  Quando NOS PROIBIMOS pensar em algo... exatamente neste momento isso não mais nos abandonará!

Dizem que a cerimônia foi memorável... à altura do novo mestre do mosteiro.

 

Breve análise:

Gosto de contar esta anedota zen aos meus pacientes, para provocar o humor sobre nossas ilusões de controle. 

Não controlamos: as situações da vida, as reações ou opiniões das pessoas, nem tampouco o que sentimos ou pensamos.  Quanto mais projetamos “o que a vida tem que ser / o que temos que conquistar”, mais iludidos de controle estaremos. 

Viver com atenção plena no aqui e agora é uma tarefa complexa em sua simplicidade, pois nossa mente nos prega peças. 

Em situações específicas, quando nos cobramos NÃO PENSAR EM ALGO, ou NÃO SOFRERMOS por uma determinada situação, estes pontos podem se transformar em elefantes amarelos. 

Quando nos proibimos pensar ou sentir algo, então esta ideia não nos abandonará.  Acolher nossos desconfortos, frustrações e nos percebermos finitos - em várias situações - pode ser libertador.

Viver a vida como ela acontece, no aqui e agora torna-se necessário para não vivermos eternamente nas projeções e preocupações que nossa mente cria e potencializa.

Preocupar-se significa, literalmente, ocupar-se antes do tempo oportuno de algo. 

Reflita e observe quais são os seus elefantes amarelos a cada momento.

 

Sobre a autora:

Daniela M. Fuschini Favaro é psicóloga, gestora da clínica CICLOS - Espaço terapêutico.

Especialista em Logoterapia aplicada à Educação,

Integra o corpo docente da pós graduação do IECVF - Instituto de Educação e Cultura Viktor Frankl de Ribeirão Preto/SP.  

Define-se cada vez mais uma terapeuta contadora de histórias. Segundo Carl Jung, o ser humano não é racional, mas simbólico. 

Mais informações, consulte  Corpo Clínico / Psicologia neste site.

 

 

 

 

 

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