Ensō e o Vazio - Ciclos - Espaço Terapêutico
Ensō e o Vazio

Neste texto, o psicólogo Eduardo Watanabe Ribeiro nos brinda com o conceito de Ensō, da filosofia oriental budista.  Em tempos de tantas queixas sobre a aceleração de pensamentos, do cansaço de nunca desligar dos afazeres, preocupações e problemas, torna-se oportuno conhecer o conceito de vazio do oriente para dar uma pausa, ou um reset em nossa velocidade de pensar e fazer. 

A filosofia oriental tem muito a contribuir com conceitos e elementos que nos faltam na cultura ocidental.  O texto de Eduardo está na medida entre as informações e o convite a reflexões. 

Bem vindos a esta jornada inspiradora!

Boa leitura!!

Daniela Favaro

 

 

Ensō e o Vazio

Autor: Eduardo Watanabe Ribeiro - Psicólogo

Ensō é um símbolo japonês que significa “círculo” e simboliza o vazio – não em um sentido negativo, nem positivo – mas  no sentido da vacuidade budista: como a natureza de todos os fenômenos.

O círculo é feito com uma pincelada só em um papel de arroz ou seda e seus defeitos são um aspecto essencial da existência: a aceitação da “imperfeição” como “perfeita”.

Coloco entre aspas justamente para esclarecer que não falo de perfeição no sentido de que as coisas são sempre boas, ou mesmo sempre ruins. A partir da apreensão do vazio, não existe essa dualidade, é o perfeito como significado da atitude serena, a qual nada julga, apenas entende que as coisas são, que as relações são interdependentes e coemergentes, que as coisas vão além do mundo limitado da técnica e da objetificação, além do querer e do não-querer.

Essa atitude de serenidade se dá quando acessamos o vazio e repousamos no essencial. Ensō possui diversas interpretações e significados, afinal ele é tanto cheio quanto vazio, representando assim as dualidades da roda da vida e, a nível mais profundo e sutil, o vazio de onde toda a dualidade é possível de brotar, de ser. Algumas das interpretações do Ensō podem ser, por exemplo: o começo e o fim de todas as coisas, o círculo da vida, a natureza cíclica da existência, uma manifestação do momento, etc. Mas, pessoalmente, acho pertinente e escolho este símbolo para falar da representação simbólica da vacuidade, do vazio.

No Prajna Paramita (Sutra da Perfeição da Sabedoria), um dos mais famosos ensinamentos do Buda sobre a vacuidade, diz-se o seguinte:

“Forma é vacuidade.

Vacuidade é forma.

Vacuidade não é nada mais que forma. Forma não é nada mais que vacuidade.”

Como Dokhampa (2013) escreve: “os fenômenos são vazios de existência independente, mas são vividamente aparentes”, ou seja, a nível sutil, todos os fenômenos são não possuidores de características definidoras, não são deficientes e nem completos, não nascem e nem cessam, pois nada no universo existe de modo independente.

No Shinjinmei, um poema oriental sobre o budismo Zen, descreve-se o Ensō como um vasto espaço onde não falta nem sobra nada. Ouso fazer um paralelo aqui: Heidegger chama esse vazio de onde tudo brota e que permite que tudo seja, de Região, que “significa a extensão livre [...] [e] reúne, tal como se nada acontecesse, cada coisa com cada coisa e todas entre si no demorar-se (das Verweilen) no repouso em si próprio” ( Heidegger, 1959). Sendo assim: “Região é, provavelmente, o ser (Wesende) oculto da verdade’’ (Heidegger, 1959).

 

E aí, muito confuso? A vacuidade é nada e tudo ao mesmo tempo, um espaço infinitamente aberto, mas está além de nossa capacidade de conceitualizar e apreender totalmente  com nossos sentidos, pois quando a nomeamos, já nos distanciamos. A intenção de refletir sobre a vacuidade é abrir questionamentos e pensar novas possibilidades de existir e de nos entender como seres-no-mundo. Segundo Dokhampa (2013), se entendemos a vacuidade, entendemos a natureza de tudo, tais como a dos relacionamentos, das emoções, de uma casa e de uma flor.

Trazendo o conceito para a prática clínica:

Geralmente, na prática clínica, costuma-se ligar o termo vazio a uma falta de sentido de vida daquela pessoa que se encontra mergulhada em um vazio existencial, na falta de uma razão de ser, que Frankl (1989) aponta também como uma falta de um endereçamentro ao outro. Mas como vimos, não é desse vazio que falamos. Na prática clínica, a ideia de pensar o vazio (ou vacuidade) é a possibilidade de desconstruir pensamentos e comportamentos solidificados no tempo e na história, para que possamos nos aproximar desse vazio de onde tudo brota, buscando assim, auxiliar a pessoa que está em um estreitamento, apegada ao seu modo de ser e ao seu sofrimento, a ampliar suas possibilidades, aproximando-se de sua verdade e de seu ser. Quando a pessoa deixa-se aproximar desse vazio, aproxima-se de sua essência, que por sua vez, permite que ela se torne responsável por construir sua própria história.

Referências bibliográficas: 

HEIDEGGER, M. Serenidade. Lisboa: Instituto Piaget, 1959.

DOKHAMPA, G. A lua no espelho: uma visão incomum da Prajna Paramita. 1 ed. Rio de Janeiro: Teresópolis: Lúcida Letra, 2013, 148p.

FRANKL, E.V. Um sentido para a vida: psicoterapia e humanismo. Aparecida, SP: Editora Santuário, 1989

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