Os Provadores de Vinagre - Ciclos - Espaço Terapêutico
Os Provadores de Vinagre

O cenário do imaginário de Winnie the Pooh acontece no Bosque dos Cem Acres.  Um garoto, Cristopher Robin, interage com os personagens Pooh (Puff), Piglet (Leitão), Tiger (Tigrão), Roo (Guru), Eyore (Ió), Rabbit (Abel), Coruja e Can (mãe de Guru).  A simplicidade da narrativa mistura aventuras fantásticas com uma forma lúdica de conceituar o mundo.   Em “O Tao do Pooh”, com estes personagens e neste universo, o autor Benjamin Hoff conduz com maestria estas narrativas tecendo conceitos sobre o TAOÍSMO, e a filosofia oriental a partir de outros mestres.  Destaco neste texto uma das preciosidades:  Os provadores de Vinagre...

Boa leitura!

Daniela Favaro

 

OS PROVADORES DE VINAGRE

Autora:  Daniela Favaro

 “Vamos imaginar que estamos andando por uma estreita viela de uma grande cidade chinesa e entramos numa lojinha que vende pinturas sobre temas antigos, feitas em longas faixas de seda.  Pedimos para ver alguma coisa alegórica, com um pouco de Sabedoria Perene e uma pitadinha de humor... O dono da loja sorri, ‘tenho justamente o que querem, uma cópia dos Provadores de Vinagre.’  Dizendo isso, leva-nos a uma grande mesa onde estende um rolo de seda, colocando-o à nossa frente.  ‘Desculpem-me, tenho que sair por um momento’, diz enquanto se retira, discretamente, para o fundo da loja, deixando-nos a sós. 

Sabemos que o original desta pintura pertencia a uma época remota, perdida no tempo.  No entanto, atualmente, seu tema é bem conhecido.  Logo notamos que a cópia à nossa frente é recente.  Representa três homens reunidos à volta de uma talha de vinagre, onde mergulham os dedos e provam de seu conteúdo.  No entanto, suas reações são bem diferentes, como demonstram as expressões estampadas em seus rostos. Sendo a pintura uma alegoria, depreende-se que as figuras não são de simples provadores de vinagre, mas representam os ‘Três Ensinamentos’ da China, enquanto que o vinagre simboliza a ‘Essência da Vida’. 

Os três homens são os mestres Confúcio, Buda e Lao -tsé, este último autor do mais antigo livro taoísta.  O primeiro tem uma expressão azeda, o segundo, amarga e o terceiro, sorri.” (HOFF, 1995, p. 2-3)

Desta forma simples, o autor nos apresenta as três escolas de pensamento da antiga China: o confucionismo, budismo (que teve seu início na Índia) e o taoísmo. 

Nosso primeiro provador, é Confúcio - de quem conhecemos frases e citações que nos parecem atemporais – mas seus textos falavam dos personagens reais de sua época.  Confúcio pode ser comparado à nossa dimensão racional e ao nosso Ego que vive o “real” e organiza a vida, os conceitos e toda sua criatividade preconizando o “modo correto” de fazer as coisas. 

 “Na visão de Confúcio, a vida tinha algo de azeda.  Acreditava ele que o presente estava em descompasso com o passado e a lei dos homens em desarmonia com o Tao do Céu, a lei universal.  Logo, dava grande importância à atitude reverente frente aos ancestrais ao cerimonial e aos rituais antigos nos quais o imperador, o Filho do Céu, atuava como mediador entre o infinito do Céu e a limitação da Terra.  Sob o confucionismo, a música da corte era metricamente precisa, os passos pré-estabelecidos, o comportamento, a linguagem, tudo, girava em torno de um sistema de preceitos extremamente complexo, onde cada rito tinha um propósito e um momento exato, pré-determinado. Confúcio dizia:  ‘Se a esteira não está devidamente estendida, o mestre não senta’.  Isso dá uma ideia de até onde estas coisas eram levadas sob o confucionismo” (HOFF, 1995, p. 3)

O que isso nos lembra?

Nossa forma de “organizar” as relações, as atividades, nossas ocupações no cotidiano.   Nosso desgaste quando “as coisas não acontecem como deveriam” (leia-se:  como gostaríamos que acontecessem) e a vida se torna AZEDA.  Equivale a dizer que esperaria outro gosto ao provar vinagre, menos o gosto do vinagre!! – assim são as ilusões de controle que nossa mente cria e projeta em tudo à nossa volta.  Repetidamente nos tornamos azedos nas reações por esperarmos outra coisa, menos os fatos que acontecem. 

Quanto mais ilusão de controle, mais azedo sentimos.

Nosso segundo provador:  Buda. 

O budismo teve seu início na antiga Índia e depois foi levado à China, onde recebeu transformações significativas da própria cultura chinesa, gerando outras linhas de budismo.  Os conceitos principais foram mantidos, mas cada cultura faz sua leitura dentro de sua cosmovisão, ou seja, sua forma particular de compreender a existência e o sentido de tudo. 

Nosso segundo provador tinha uma expressão AMARGA. 

“Para Buda, a segunda figura da pintura, a vida na terra era amarga, cheia de apegos e desejos, fontes de sofrimento.  O mundo era visto como um criador de armadilhas, um gerador de ilusões, uma roda cujo giro produzia dor para todas as criaturas.  Para encontrar a paz, o Budismo acha necessário transcender ‘este mundo de pó’ e alcançar o Nirvana, literalmente um estado ‘sem vento’.  Apesar da atitude intrinsecamente otimista dos chineses ter alterado bastante o Budismo após sua chegada da Índia, onde surgiu, mesmo assim seus seguidores tendiam a ver o caminho para o Nirvana obstruído pelo amargo vento da existência humana” (HOFF, 1995, p. 4)

O AMARGOR da quebra de ilusão de controle de nosso ego... de nossa mente que DESEJA SENTIR que se fizer “tudo certo”, tudo acontecerá linearmente obedecendo nossas projeções.  O amargor indica O MOMENTO DA QUEBRA DA ILUSÃO DE CONTROLE – e não o fato do sofrimento fazer parte da vida! 

Schopenhauer trouxe para sua filosofia o aspecto do sofrimento fazer parte do existir e foi rotulado como pessimista.  Pessimismo ou realidade? – o ocidental chama de pessimismo porque em sua cultura que prefere o empirismo e a organização racional de tudo, alimenta as ilusões de controle.  A “descoberta” de não controlarmos nada é AMARGA.

Buda não é uma pessoa ou um deus.  Historicamente há descrições de vários budas, que seriam pessoas que atingiram o estado de bodhisattva, ou seja, um grau de iluminação para enxergar as verdades, portanto um dos significados de Buda é DESPERTO.  Aquele que desperta para as verdades da existência a partir da PRÁTICA do desapego, da impermanência e da compaixão.  Essas atitudes quebram nossas ilusões sobre a existência e nos conectam com um olhar mais amplo, mas como diz Padma Samtem, os ensinamentos não devem ser vistos como uma verdade a ser aceita.  Devemos estuda-los e testá-los à nossa maneira. 

O caminho (zen) leva-nos a percorrer o caminho de compreensão e vivência das quatro nobres verdades budistas: A pri­mei­ra verdade diz que a vida é cheia de sofri­men­to. A segun­da, que o sofri­men­to é cau­sa­do por nosso apego à ilu­são. A ter­cei­ra ver­da­de diz que a ilu­mi­na­ção, ou a total liber­ta­ção do sofrimento, é pos­sí­vel. A últi­ma diz como alcan­çar a ilu­mi­na­ção, quebrando as ilusões que nossa mente cria, exercitando o desapego e a impermanência, chegando a um grau de compaixão quanto a tudo que existe – todos os seres, a natureza, o equilíbrio e harmonia. 

Amargo é dar-se conta de que a existência e os fatos não obedecerão aos nossos desejos e projeções, pois a vida apenas é o que é. 

O terceiro provador, Lao-tsé (em alguns textos encontrado como Lao-Tzu), tem uma expressão DOCE ao experimentar o vinagre. 

A primeira pergunta que nossa mente ocidental faz:  COMO e POR QUE o vinagre DELE está doce?

Este é o resultado de nossa mente condicionada ao “empirismo científico” – a expressão de doce deriva não do sabor do vinagre estar alterado para Lao-tsé, mas sim dele provar a essência da vida não esperando outra coisa que não fosse o sabor do vinagre. 

Em uma máxima taoísta, encontramos o aviso: “Quem compreende Tao, não explica.  Quem explica muito, não entendeu”.  É um conceito para ser OBSERVADO e vivenciado sutilmente.  Tao seria o todo de tudo o que existe.  A vida é o que é.  As pessoas são o que são.  Os fatos se sucedem como se fossem ondas na praia e Tao seria o próprio oceano e todos seus movimentos.

Se na quebra de ilusão de controle o budismo nos traz um amargor ao afirmar serenamente que o sofrimento será nosso companheiro de jornada, na compreensão taoísta exercitamos o olhar para a vida com a simplicidade e alegria de uma criança. 

Como viveríamos ao observarmos o real gosto de cada situação ou fato?

Provar o azedo não esperando outro sabor em seu lugar.  Receber ou de despedir de relacionamentos sem esperar nada mais que a compreensão sobre o ciclo que se inicia ou termina... e observar apenas e atentamente o que aprendemos sobre nós mesmos, sobre as outras pessoas e sobre o existir após essa experiência.  Nem mais, nem menos.  Apenas ser o que é.  Viver o que acontece.  Permanecer pleno, inteiro, atento, sereno, neste existir. 

Nas três escolas do pensamento chinês encontramos uma evolução de nosso próprio desenvolvimento existencial no mundo:

Confúcio leva-nos à infância e juventude da existência, quando tentamos compreender como tudo funciona, o modo “certo” de conquistar o que desejamos e a tentativa – muito forte na cultura ocidental – de buscarmos a verdade, a felicidade e as fórmulas para vivermos. 

O budismo hindu carrega nas cores da quebra de ilusão deste mundo e de aceitação quanto ao sofrimento ser um companheiro de jornada.  O budismo tibetano, zen, zazen e outras vertentes que surgiram na China apontam caminhos de transformação nesta visão de mundo que conduzem a uma leveza e libertação não amarga.  Apenas o que é aceito pode ser transformado, segundo Jean Yves Leloup.  Quebrar as ilusões de controle e desenvolver resiliência, paciência, persistência e foco no que seja essencial são os desafios da segunda fase da vida – da juventude à maturidade adulta. 

O taoísmo pode ser o símbolo marcante da maturidade que avança décadas à frente e revela quem trilhou o caminho do crescimento existencial.  Lao-tsé pode significar tanto “velho mestre” quanto “criança velha”, pois trata-se da conquista de conseguir olhar a vida, a existência com os olhos de quem viveu muito, mas permanece neste olhar a leveza que  ludicamente ri de tudo o que observa - um olhar puro e cristalino de uma criança.  Essa é uma virtude.  Uma conquista.  Uma dádiva.  Verdadeira felicidade.  Também é uma verdadeira possibilidade...

Lembre-se dos provadores de vinagre em seu cotidiano.  Dialogue com eles. 

Disse o mestre zen:  “O dedo serve para apontar a lua.  O sábio olha a lua.  O ignorante olha o dedo.”  

 

Bibliografia:

HOFF, B. O Tao do Pooh.  São Paulo:  Triom, 1995.

 

Sobre a autora:

Daniela M. Fuschini Favaro é psicóloga, gestora da clínica CICLOS - Espaço terapêutico.

Especialista em Logoterapia aplicada à Educação, com título reconhecido pelo MEC de especialista em ensino superior. Integra o corpo docente da pós graduação do IECVF - Instituto de Educação e Cultura Viktor Frankl de Ribeirão Preto/SP.  

Atua na área fenomenológica de base humanista e existencial atendendo em psicoterapia adolescentes e adultos, além de ministrar cursos e supervisão a outros profissionais da área clínica.  Autores e teorias que a inspiram: Logoterapia, Psicologia Transpessoal e Junguiana.  Mais informações, consulte  Corpo Clínico / Psicologia neste site.

 

 

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