A parábola da pedra - Ciclos - Espaço Terapêutico
A parábola da pedra

Autora: Daniela M. Fuschini Favaro

 

As parábolas orientais trazem o movimento dos processos necessários para alguma aprendizagem.  Essa característica nunca deixa de me surpreender e me encantar.  Ouvi essa parábola de uma jovem de 28 anos, em um congresso de Logoterapia e passo, desde então, adiante.  São os presentes que recebemos e passamos adiante.  Corrente do bem. 

Surpreenda-se também!

Boa leitura!!

 

A parábola da pedra

 

Em um tempo muito distante, na China, havia uma aldeia cercada de montanhas onde havia a tradição de apresentar aos discípulos, no justo momento, sua atividade de responsabilidade na aldeia.  A partir daquele momento, o discípulo se tornava responsável perante a comunidade ao realizar sua atividade.

Um dia o mestre convidou seu discípulo para assumir sua função intransferível na aldeia, o que  o fez sentir-se muito honrado.  Caminharam até a base de uma das montanhas que rodeavam a aldeia.  O mestre disse: 

- Está vendo esta pedra? Sua função será leva-la até o alto desta montanha e não deixá-la passar para o lado de lá.  Portanto, há um ponto exato que deve encontrar para sua tarefa.

Dito isso, o mestre deixou o discípulo com sua função.  Não foi fácil conduzir a pedra até o ponto exato! Era muito pesada e a cada trecho do percurso o discípulo precisava alternar manejos e estratégias para avançar e descansar quando necessário.  Até o final daquele dia, conseguiu concluir sua tarefa! E a pedra passou a noite em seu lugar exato. 

Satisfeito, o discípulo voltou para sua casa na aldeia e descansou. 

No dia seguinte, o discípulo foi contemplar sua obra do dia anterior, mas - para seu espanto - a pedra havia rolado durante a noite e estava exatamente no local onde começara sua tarefa.  Novamente conduziu-a ao ponto exato. Naquela noite, ela rolou para o ponto de partida. 

E assim passou-se o próximo ano:  todos os dias o discípulo conduzia a pedra ao ponto exato na montanha.  Todas as noites a pedra rolava até o ponto de partida.

Certo dia, quando o discípulo já iniciava seu trabalho de conduzir a pedra ao ponto exato, um conhecido da aldeia que passava a caminho de seus próprios afazeres, parou e perguntou:

- Por que você faz este trabalho de idiota?

O discípulo se assustou e perguntou:

- Como assim?

O conhecido respondeu:

- Há um ano passo aqui todos os dias e vejo você levando esta pedra.  Quando volto no final da tarde, encontro-me com você retornando desta função para recomeçar no dia seguinte.  Não vê que não está adiantando? Percebe que não muda nada?  É um trabalho de idiota!!

O discípulo ficou espantado com a observação! Decidiu procurar o mestre. 

Chegando à sua morada, foi recebido com um largo sorriso:

- Olá! O que o traz aqui?

O discípulo respondeu: 

- Mestre, tenho uma pergunta! Por que há um ano deu-me um trabalho idiota para realizar?

Espantado, o mestre perguntou o que queria dizer com aquilo.  O discípulo explicou:

- Mestre, há um ano eu conduzo todos os dias a pedra ao local exato, do modo que me explicou.  Todas as noites a pedra rola para o ponto de partida.  Então, é um trabalho de idiota! NÃO ESTÁ MUDANDO NADA.

Então o mestre compreendeu de que se tratava e abriu seu largo sorriso novamente.  E, sem dizer palavra alguma, apenas conduziu o discípulo até a frente de um espelho.  Agora foi a vez do discípulo se espantar!! Mirando sua imagem, deu-se conta de que no decorrer daquele ano, havia desenvolvido seu físico e tornara-se um homem de claros traços de guerreiro. 

O mestre então, abrindo ainda o sorriso – que apenas os grandes mestres são capazes de abrir - disse: 

- E quem lhe disse que o trabalho era para a pedra?

 

 

Café filosófico:

Em tempos tão líquidos com tanta pressa para tudo, tentamos otimizar nosso tempo, eleger prioridades.  Importante, além de nossos projetos e realizações, pararmos para nos perguntarmos sobre TUDO O QUE É APRENDIDO E APREENDIDO, TRANSFORMADO, em cada tarefa realizada.

Utilizo esta parábola no Projeto de Vida com alunos do Ensino Médio, para falar do enfrentamento das tarefas de responsabilidade, de formação de competências para a vida que desejarem viver.  Criar persistência e resiliência é uma arte nestes tempos de tanta velocidade e imediatismo!

Tudo o que é precioso, profundo e estruturante leva TEMPO de processo de aprendizagem. 

Utilizo também esta parábola em psicoterapia com meus pacientes:  sempre para refletirmos sobre o que se transforma nas águas profundas de nossa existência, que a superfície não consegue compreender e alcançar. 

Às vezes frente ao sofrimento... às vezes frente a uma nova função de responsabilidade – no emprego, em um relacionamento, na chegada dos filhos ou de cuidados com alguém que adoeça ou envelheça.  Processos existenciais, que nos exigem sair de nossos objetivos individuais para servirmos a alguma função ou causa.  E vem a pressa, a insatisfação, a infelicidade... ou a plenitude, a autenticidade e a alegria genuína de vivermos o sentido de dedicação a algo. 

Tantas nuances sutis, que conforme sempre lembra-me uma pessoa muito querida:  O QUE É BOM... É RUIM! E O QUE É RUIM... É BOM!

Para todas as fases de nossa vida este koan (técnica de meditação oriental através de frases paradoxais) se aplica.

Muitas vezes, ao passarmos uma fase BOA de vida, sem conflitos ou sobressaltos pode levar-nos a não perceber uma série de situações, necessidades e atenções.  Então também é RUIM por entrarmos em uma zona de conforto ou invisibilidade de situações essenciais.

Por outro lado, uma fase considerada difícil e RUIM, de enfrentamento de um desafio, algo que nos desorganiza inicialmente, uma mudança brusca de fase – de relacionamento, emprego, saúde, luto – nos faz enxergar o essencial na vida, sair da zona de conforto e vencer desafios, crescer cada vez mais.  Então, é BOM. 

Observe as pedras em sua vida... e quais tarefas não são das pedras. 😉

 

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