Fantasia e Mentira: qual a diferença? - Ciclos - Espaço Terapêutico
Fantasia e Mentira: qual a diferença?

Neste texto abordaremos os elementos que diferenciam a fantasia e a mentira na infância.  Qual a função da fantasia no desenvolvimento psíquico e cognitivo da criança?  

A atenção do ambiente familiar e escolar frente à fantasia e à mentira podem levar a condutas e ações importantes para o desenvolvimento saudável individual e coletivo. Contribuir para esta construção foi a inspiração deste texto.  

Boa leitura!

Daniela Favaro

 

Fantasia e Mentira:  Qual a diferença?

Autora:  Daniela M. Fuschini Favaro

 

A fantasia e a mentira na infância

Há inúmeros trabalhos sobre a importância da FANTASIA no desenvolvimento infantil.  Pesquisas e artigos na área da psicologia da aprendizagem e neuropsicologia demonstram estatisticamente que crianças que desenvolvem maior imaginação demonstram QI mais alto e maior capacidade de enfrentar novos problemas e situações.  Estimular a imaginação e a fantasia dos 0 aos 6 anos melhora sua habilidade de aprender conteúdos cognitivos e acadêmicos, levando a uma ampliação da capacidade de refletir que serão determinantes para a base de compreensões abstratas complexas futuramente, incluindo aspectos existenciais e de espiritualidade. 

Quanto ao vínculo, através da fantasia podemos nos divertir junto com a criança e também descobrir seu processo de pensamento.  Este é um recurso utilizado na ludoterapia em psicoterapia infantil.  Na clínica, em casa ou na escola os livros, contos, fábulas, peças de teatro, desenhos ou filmes de realismo fantástico dão margem a realidades criativas e possibilidades que prospectam soluções, ou mundos com regras diferentes de nossa realidade que permitem o surgimento de mecanismos de soluções para problemas, enfrentamento de fatos existenciais e imaginação, todos elementos importantes e significativos para lidarmos com perdas, lutos ou traumas.  A fantasia desenvolve o “como se fosse...” de outra forma. 

Geralmente o processo de fantasia expresso por uma criança – e a forma como faz as coisas e se move no seu mundo fantasioso – é o mesmo que seu processo de vida.  Podemos penetrar nos recantos mais íntimos do ser da criança por meio da imaginação e fantasia, trazendo à luz aquilo que é mantido oculto ou evitado, ou seja, podemos compreender o que se passa na vida da criança a partir de sua própria perspectiva.

Violet Oaklander, autora do livro Descobrindo crianças, contou sobre sua descoberta do valor da fantasia.  Aos cinco anos de idade sofreu um acidente que a deixou com sérias queimaduras e hospitalizada durante meses.  Dado que tudo isso aconteceu antes dos dias da penicilina, não era permitido ter brinquedos de espécie alguma, por medo de uma infecção.  A autora diz que na fase adulta entendeu os motivos, mas na época ninguém lhe explicou nada, o que a fez vivenciar todo aquele período como se estivesse em um castigo sem fim e sem motivo.  Os horários de visitas eram limitados e ela passava hora após hora estendida na cama, sem ter ninguém para conversar e nada para brincar.  Atribui sua sobrevivência a este contexto ao mergulho justamente no mundo da fantasia.  Contava a si mesma histórias intermináveis, muitas vezes ficando extremamente envolvida com os cenários.  Na vida adulta, dedicou sua carreira de psicóloga ao desenvolvimento infantil e técnicas de ludoterapia e imaginação para ajudar crianças em seu desenvolvimento.  A capacidade de imaginar e fantasiar é um tema central em sua obra e alguns pais pediam para que fizesse uma diferenciação entre fantasia e mentira e outros pais ainda demonstravam preocupação por acharem seus filhos “perdidos no mundo de fantasia”. 

Segundo Violet Oaklander: 

MENTIR é um sintoma de algo que não está certo para a criança.  Passa a ser um padrão de comportamento e não uma fantasia, embora às vezes ambos se confundam.  As crianças mentem porque têm medo de assumir uma posição com respeito a si próprias, de encarar a realidade como ela é. Frequentemente elas estão imersas em medo, dúvidas em relação a si mesmas, uma autoimagem pobre, ou culpa. Segundo Oaklander, crianças mentem quando são incapazes de enfrentar o mundo real que as cerca, recorrendo a um comportamento defensivo, agindo de forma exatamente oposta àquilo que realmente sentem.

O ambiente familiar pode levar a criança a padrões de comportamento de mentira quando se mostram severos ou inconsistentes demais, ou ainda quando pais apresentam expectativas demasiadamente elevadas de situações “perfeitas” por parte dos filhos.  Nestas situações ligadas a fatores ambientais, consideramos as mentiras como formas de autopreservação, pois torna-se nítido que o ambiente não consegue enxergar, lidar ou aceitar a criança como ela é. 

Um ambiente negligente de atenção – fator que tem crescido muito por fatores de excesso de dedicação dos pais à jornada de trabalho, ou com atividades pessoais que limitam a convivência com os filhos – a mentira passa a ser um elemento que “molda” a realidade como a criança gostaria de ser ou a respeito de tudo o que a cerca.  São padrões de mentiras por falta de referenciais, de interlocução nos vínculos familiares que resgatem o contato com a frustração frente a algo, ou validem comportamentos demonstrando que aquela mentira foi desnecessária ou uma narrativa não correspondente com a verdade.    Para Oaklander, quando a criança mente, costuma acreditar em si mesma.  Ela tece em torno do  comportamento uma fantasia que lhe seja aceitável.  A fantasia torna-se um meio de expressar as coisas que ela tem dificuldade em admitir como realidade. 

Como lidar com a fantasia e com a mentira no desenvolvimento infantil?

A FANTASIA  das crianças devem ser respeitadas, pois são consideradas como expressão de seus sentimentos.  Geralmente o ambiente não ouve, nem entende ou aceita os sentimentos da criança e ela, tampouco o faz. 

Ao sinal de uma possível evolução para padrões de comportamento de MENTIRA, precisamos observar como está a tolerância às frustrações, ao processo de vivência de realidade não onipotente, ou não aceitar a si própria com suas características, qualidades e dificuldades de desenvolvimento.

Frente a uma fase de mentiras recorrentes, é necessário compreender os contextos e gatilhos da mentira:

♦ Apreciação ou aprovação externa? (pais, familiares, amigos, pessoas novas)

♦ Negar uma realidade para não sofrer as consequências sobre uma ação? (crianças a partir de 3 a 5 anos de idade: ao mexer em algo, ou quebrar, ou agir transgredindo algum combinado)

♦ Testar os pais, ou chamar sua atenção negativamente?

♦ Tentar construir a realidade sobre os fatos? (muito comum na fase de egocentrismo que se estende até os 6 anos de idade)

Após reconhecimento dos contextos e gatilhos, torna-se possível iniciar um processo de conversa com a criança, para alinhar os fatos que de fato aconteceram, estabelecer reflexões sobre a não necessidade de mentir, estabelecer combinados para situações parecidas.

Caso a mentira tenha a ver com a esquiva da consequência de uma atitude (quebrar, perder ou sujar algo), propor solução para o problema atuando junto com a criança para solucionar (consertar, procurar, ou limpar).  O tom dos adultos quando a criança comete um erro também está relacionado aos padrões de mentira.  Se o ambiente é muito rígido com regras e os adultos demonstram intolerância a erros e falhas, será fator de contribuição para negação ou esquiva de responsabilidade. 

Trata-se da eterna tarefa de aprender a FAZER COM o filho –  a compreensão, a reflexão e o combinado, aplicando-se também à busca de soluções para os momentos de enfrentarmos nossas falhas.  Estes são os pais ativos e PARTICIPATIVOS no crescimento e desenvolvimento saudável dos filhos.  Criam situações para exercer a resiliência frente à vida e autonomia. 

Diferente de FAZER POR (no lugar do filho) – pais que fingem que nada aconteceu, que não conversam sobre a mentira do filho,  ou sanam as falhas e erros sem convidar o filho para o processo de construção necessária.  São os pais mais PERMISSIVOS, os eternos buscadores de situações que tornem o filho feliz.  Futuramente, na vida adulta, estes filhos demonstrarão dificuldades em adaptação à vida real, ausência de autonomia, resiliência e proatividade. 

Os ambientes rígidos e muito exigentes seriam os pais que FAZEM CONTRA - atuam nas broncas, ameaças e castigos para transgressões das regras.  A motivação destes pais sempre tenta justificar a busca de “ensinar o que é correto” aos filhos, mas com autoritarismo exacerbado, promovem justamente  o contrário na vida adulta futura.  Pesquisa publicada no livro de Leo Fraiman Meu filho chegou à adolescência, e agora?demonstra que filhos de pais AUTORITÁRIOS possuem menos autonomia, otimismo quanto à vida e maior tendência à depressão.  Pais extremamente críticos passam a fragilizar os filhos, em vez de fortalece-los. 

Leo Fraiman ainda descreve o tipo de pais NEGLIGENTES, que não enxergam os filhos, ou ocupam-se demasiadamente com outros setores de sua vida (trabalho, academia, viagens, vida virtual) e terceirizam a formação de seus filhos (avós, babás, escolas, acampamentos de férias).  Estes são os pais que criam em um VÁCUO de interrelação, de referenciais e interlocução para construção de elementos vitais para a vida adulta futura. 

 

Dicas preciosas: 

Conte muitas histórias a seus filhos na primeira infância!  Busque livros, desenhos filmes em que possam explorar mundos diferentes e fantasiar sobre formas como tudo poderia funcionar.  Conversem, riam, emocionem-se com esta fase junto aos pequenos.

Quando perceber padrões de mentiras, primeiro observem o contexto, os gatilhos do comportamento e iniciem um processo de convite à reflexão.  Lidar com a frustração, com as pequenas imperfeições e impotências da vida faz parte de um crescimento saudável!

Indicamos a pais de crianças do ensino infantil a leitura do livro de Leo Fraiman.

#ficaadica

 

Bibiografia:  

Fraiman, Leo, MEU FILHO CHEGOU À ADOLESCÊNCIA, E AGORA?, Editora Integrare, 2011. (prefácio de Içami Tiba)

Oaklander, Violet, DESCOBRINDO CRIANÇAS, Summus, 1980.

 

Sobre a autora:

Daniela M. Fuschini Favaro é psicóloga, gestora da clínica CICLOS - Espaço terapêutico.

Especialista em Logoterapia aplicada à Educação,

Integra o corpo docente da pós graduação do IECVF - Instituto de Educação e Cultura Viktor Frankl de Ribeirão Preto/SP.  

Atua na área fenomenológica de base humanista e existencial, sendo Viktor Frankl um dos autores de referência em sua formação. Mais informações, consulte  Corpo Clínico / Psicologia neste site.

 

 

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