Não há vida sem morte - A consciência da morte para uma vida consciente - Ciclos - Espaço Terapêutico
Não há vida sem morte - A consciência da morte para uma vida consciente

Alexandre Rampin convida-nos a um passeio sobre o conceito da morte e do morrer, que nos leva a compreender a vida e o viver.  “A concretude da morte nos aniquila; o conceito da morte nos salva” – este paradoxo lógico nos leva a reflexões importantes para uma vida com realização de sentido.

Abra sua mente, reflita sobre os conceitos e boa leitura!

Daniela Favaro

 

NÃO HÁ VIDA SEM MORTE

A consciência da morte para uma vida consciente

 

Alexandre Luiz Rampin

 

 

“A morte é uma impossibilidade que,

de repente, se torna realidade”.

Goethe

 

            Talvez para grande parte das pessoas seja ela o maior dos medos. Muitos estremecem ao ouvir seu nome, alguns fazem silêncio, outros desconversam. Mesmo assim, a morte nos espreita todos os dias e não pensar sobre ela não faz com que deixe de existir. Johann Wolfgang Von Goethe (1749-1832), estadista e escritor alemão, bem sabia disso e já em sua época observou o quanto seus contemporâneos se inquietavam com a ideia da morte, preferindo a distração à reflexão sobre essa que é tida como “a única certeza humana”.

            Muito pouco mudou na atualidade. Falar sobre a morte e o morrer ainda causa imenso desconforto e é evitado numa sociedade imediatista que busca o prazer infinito. A médica Ana Cláudia Quintana Arantes, em seu excelente livro A Morte é um dia que vale a pena viver – E um excelente motivo para se buscar um novo olhar para a vida (Casa da Palavra, 2016), nos conta, em suas páginas iniciais, que certa vez foi convidada para uma festa, onde não conhecia ninguém além da anfitriã. Conversando com alguns convidados, que demonstram curiosidade em conhecê-la, é questionada sobre seu trabalho e responde que é uma médica que cuida de pessoas que morrem (cuidados paliativos). Ao ouvirem a resposta, todos ficam em silêncio constrangedor e o clima, tenso. Depois de algum tempo um comentário é feito por alguém: “Nossa! Deve ser bem difícil!”

“Sorrisos forçados, novo silêncio. Em dois minutos, o grupo se dispersou. Um afastou-se para conversar com um amigo recém-chegado, outro foi buscar um drinque e nunca mais voltou. Uma terceira pessoa saiu para ir ao banheiro, outra pediu licença simplesmente e se foi. Deve ter sido um alívio quando me despedi e fui embora antes de completar duas horas de festa. Eu também senti alívio e, ao mesmo tempo, pesar. Será que algum dia as pessoas serão capazes de desenvolver uma conversa simples e transformadora sobre a morte?” (p. 9).

            Uma conversa simples sobre a morte e que se revele transformadora... Seria isso possível? Acredito, sinceramente, que sim. Com meus pacientes em psicoterapia e em palestras que realizei, ao confrontá-los com reflexões sobre a morte, observei que passaram a compreender a vida de maneira mais rica, apaixonada e essencial. Nesse aspecto, concordo com as palavras de Irvin D. Yalom, psicólogo norte-americano, autor de muitos livros, dentre eles Quando Nietzsche Chorou, ao afirmar que quando encaramos a morte nos olhos, além de suavizarmos o terror que ela possa nos provocar, também podemos enriquecer nossa vida.

            Mesmo sabendo que vamos morrer, vivemos como se isso não fosse acontecer, como quem não acredita que isso será possível um dia (a impossibilidade que, de repente, se torna realidade, mencionada por Goethe). Se acreditássemos, nos tornando conscientes, poderíamos ficar mais envolvidos com a vida, nos concentrando naquilo que é essencial. Quando tomamos consciência de nossa mortalidade, passamos a ver o mundo de maneira diferente.

            Santo Agostinho escreveu que “é apenas perante a morte que o caráter de um homem nasce”. Na Idade Média, monges cristãos mantinham em suas celas (aposentos) caveiras humanas para lhes lembrar da mortalidade e da condução da vida. Os mais eminentes pensadores, de todas as épocas, advertem-nos para o fato de que apesar da concretude da morte nos destruir, o conceito da morte nos salva. Martin Heidegger (1889-1976), filósofo alemão, examinando esse pensamento propõe dois modos de existência: o modo cotidiano e o modo ontológico. Vivendo no modo cotidiano nos integramos ao ambiente e estamos presos a distrações efêmeras (a aparência física, o estilo, os bens, o prestígio). Quando nos conduzimos no modo ontológico (onto = ser e logia = estudo), nos concentramos em sermos nós mesmos, conscientes da existência, da nossa mortalidade, das características imutáveis da vida. Existindo de maneira ontológica nos tornamos inclinados a realizar mudanças significativas, assumindo a responsabilidade humana fundamental de construir uma autêntica vida de compromisso e significado, conosco mesmos e com os outros.

            Mas o que pode nos tirar do modo cotidiano de viver e nos levar para o modo ontológico? Uma experiência reveladora, um acontecimento urgente ou irreversível que nos desperta. Irvin D. Yalom, no livro De Frente para o Sol – Como superar o terror da morte (Agir, 2008), utiliza três obras da literatura universal para exemplificar a experiência reveladora.

            No conto A Canção de Natal, de Charles Dickens, o personagem Ebenezer Scrooge, um velho avarento, mesquinho e solitário, se transforma, ao final da narrativa, em um homem generoso, afetivo e disposto a ajudar seus empregados humildes. Essa mudança não foi ocasionada pelo clima natalino ou pela consciência de Scrooge, mas por uma experiência reveladora. Scrooge recebe a visita de três espíritos: o espírito do Natal Passado, o espírito do Natal Presente e o Espírito do Natal Futuro. É este último quem oferece ao velho uma visão do porvir: Scrooge vê seu corpo morto descuidado, seus bens sendo penhorados, pessoas comentando sua morte e nem um pouco se importando. Até que o espírito o leva a visitar seu próprio túmulo no cemitério da cidade. É nesse momento em que há a transformação, e Scrooge é uma nova pessoa.

            Em Guerra e Paz, de Liev Nikoláievich Tolstói, Pierre, o protagonista do romance, está prestes a encarar a morte por fuzilamento, entretanto, de maneira inesperada, a sentença é suspensa, depois de alguns outros homens terem sido mortos em sua frente. Alguém perdido e desesperado antes disso, Pierre se transforma e passa a viver seus dias de maneira entusiasmada e com objetivos. Também em outro livro de Tolstói, A Morte de Ivan Ilich, um homem de meia-idade, arrogante e pensativo, contrai uma doença abdominal fatal e agoniza com dores dilacerantes. Quando o fim se aproxima, Ivan constata que sempre viveu escondendo de si a noção da morte, preocupando-se com poder, aparência e controle. Após uma profunda e sincera conversa consigo mesmo, ele desperta num momento de grande clareza constatando que morre tão mal porque viveu mal, que ao se isolar da morte se isolou da vida. Mas, mesmo na proximidade da morte, ele percebe que ainda lhe resta tempo e descobre a compaixão.

            É possível compreender que a noção da morte contribui para uma mudança pessoal importante. A morte concreta, evento biológico natural, nos aniquila, é certo, mas a consciência dela nos proporciona vivermos a vida de maneira autêntica e verdadeiramente proveitosa. De acordo com Arantes (2016), ao respeitarmos a morte (refletirmos sobre ela), encontraremos equilíbrio e harmonia em nossas escolhas diárias. Não alcançaremos a imortalidade física jamais, mas realizaremos a experiência consciente de uma vida que valerá a pena ser vivida.

            A consciência de nossa mortalidade é um convite para refletirmos sobre nossa existência: Qual é o objetivo de minha vida? Qual é a mensagem que eu realmente quero transmitir? Até agora, “eu vivi” ou “fui vivido”? Como eu quero viver o tempo que me resta? Qual obra quero deixar para o mundo?

            Viktor Emil Frankl (1905-1997), o criador da Logoterapia, a Terceira Escola Vienense de Psicoterapia (sendo a Psicanálise Freudiana a primeira e a Psicologia Individual de Adler a segunda), afirma que a vida não nos traz respostas e, sim, nos questiona. Portanto, somos nós quem respondemos a ela por meio de nossas escolhas e atitudes diante das mais diferentes situações, o que nos faz responsáveis e descobridores do sentido de cada situação que vivenciamos. Assim, também na morte há um sentido.

“(...) O que aconteceria se a nossa vida não fosse finita no tempo, mas antes temporalmente ilimitada? Se fôssemos imortais, poderíamos, com razão, adiar cada uma de nossas ações até o infinito; nunca teria a menor importância o realizá-las agora, neste momento preciso, podendo muito bem realizar-se amanhã ou depois de amanhã, ou daqui a um ano ou dez. Em compensação, tendo em vista a morte como fronteira infranqueável do nosso futuro e limite de nossas possibilidades, vemo-nos obrigados a aproveitar o tempo de vida de que dispomos e a não deixar passar em vão as ocasiões irrepetíveis que se nos oferecem, ocasiões essas cuja soma “finita” representa precisamente a vida toda” (FRANKL, 2010, p.109).

            Havendo um limite de tempo para todos nós nessa existência, somos chamados todos os dias à responsabilidade de vivermos com sentido, não desperdiçando as possibilidades que temos para realizarmos uma “boa obra” enquanto aqui estamos, pois é justamente essa obra que deixamos para o mundo que nos torna “imortais”. Isso está consolidado nas palavras de Frankl (2010)

“Mesmo que se apague, não se pode dizer que uma tocha não teve sentido em seu resplendor, enquanto iluminou” (p. 113).

            A morte é um estímulo para a ação responsável. É a morte que outorga sentido à vida e à nossa existência como única (do Diccionario de Logoterapia, Marta Guberman e Eugenio Pérez Soto – edição em espanhol, Sentido Lumen Humanitas, Buenos Aires – México, 2005).

            Concordante com Viktor Frankl, o monge beneditino Anselm Grün, escritor renomado de várias obras, traduzidas em diversos países, salienta que se a morte não existisse também não nos desenvolveríamos e a vida não teria nenhuma tensão interna, sendo que é a “razoável tensão” que move a vida.

“A morte nos remete à nossa própria finitude. Convida-nos para aproveitar o tempo, (...) vivê-lo de modo consciente para que possamos nos tornar uma bênção para os outros por meio de nossa vida. Nosso tempo não é infinito, por isso devemos aproveitá-lo (...). O pensamento diário sobre a morte nos desafia pra que vivamos de modo consciente o dia de hoje, que poderia ser o último (...)” (GRÜN, 2009).

Hoje poderia ser nosso último dia... Hoje! Como estou vivendo? Como decido viver a partir dessa constatação? Perguntas que pedem respostas em ações. Lembra-nos Ana Cláudia Quintana Arantes que morremos mais depressa se vivemos negando a consciência da morte. Não há vida sem morte: conscientes de nossa finitude, do nosso breve tempo, devemos saborear cada momento como algo precioso, intensificando nossa compaixão por nós e pelos seres humanos que conosco caminham para esse destino comum, pois a vida é muito curta pra ser pequena.

 

Alexandre Luiz Rampin é psicólogo clínico, atuando na Ciclos Espaço Terapêutico, na cidade de Araras-SP e no Espaço Santa Lydia, na cidade de Leme-SP.

Especialista em Logoterapia Aplicada à Educação pelo IECVF – Instituto de Educação e Cultura Viktor Frankl, da cidade de Ribeirão Preto-SP.

Ministra encontros e cursos na Ciclos Espaço Terapêutico, além de realizar palestras.

 

Para saber mais...

 

ARANTES, A. C. Q. A morte é um dia que vale a pena viver – E um excelente motivo para se buscar um novo olhar para a vida. Rio de Janeiro-RJ: Casa da Palavra, 1ª edição, 2016.

FRANKL, V. E. Psicoterapia e Sentido da Vida. São Paulo-SP: Quadrante, 5ª edição, 2010.

GRÜN, A. Encontrar o Equilíbrio Interior. Petrópolis-RJ: Editora Vozes, 3ª edição, 2009.

YALOM, I. D. De Frente para o Sol – Como superar o terror da morte. Rio de Janeiro-RJ: Agir, 1ª edição, 2008.

 

 

 

 

           

           

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