Sobre a Logoterapia de Viktor Frankl: um convite à saúde existencial - Ciclos - Espaço Terapêutico
Sobre a Logoterapia de Viktor Frankl: um convite à saúde existencial

 Quando alguém me pergunta “O que é a Logoterapia”, indico a leitura do livro EM BUSCA DE SENTIDO – de Viktor Frankl e explico os conceitos que sintetizei neste texto.  Em tempos tão voláteis de velocidade de interação e relações líquidas, como nos diz Zigmunt Bauman, pensar no sentido leva a um processo de enraizamento existencial. 

Viktor Frankl (1905 – 1997), psiquiatra vienense, teve o cenário da primeira grande guerra mundial como marca do final de sua infância e início de adolescência.  Judeu, recebeu um passaporte no início da segunda grande guerra em 1939, para partir para os EUA – em virtude de suas publicações no meio acadêmico – mas escolheu permanecer em Viena para estar com sua família.  A passagem por quatro campos de concentração entre 1942 e 1945 levaram Frankl a VIVENCIAR sua teoria sobre a questão central da existência e desenvolvimento do ser humano:  a Busca de Sentido.

Ao analisar o problema do sentido da vida distinguiu, em termos gerais, três categorias de valores que são caminhos para descobrir o sentido da vida que compreendem toda possível situação de vida da pessoa humana, ou seja, em qualquer situação, incluindo uma situação terminal, para Frankl “a vida está repleta de oportunidades para dotá-la de sentido”. Este texto é um convite para conhecer o propósito deste referencial teórico.  Dra. Marina Lemos, coordenadora do curso de pós graduação em Logoterapia aplicada à educação do IECVF, sempre ressalta que somos TODOS peregrinos do sentido.

Boa leitura e seja bem vindo!

Daniela Favaro

Sobre a Logoterapia de Viktor Frankl – Convite à saúde existencial.

Caminhos para a descoberta e realização de sentido da vida

Autora: Daniela M. Fuschini Favaro

 

O que podemos esperar da vida?

A resposta é silêncio.

O que a vida pode esperar de nós?

A resposta está em nossos lábios e em nossas mãos.

Elisabeth Lukas

 

Frankl descreve três categorias de valores que são as vias de realização de sentido de vida:

1)  Valores Vivenciais:  Realizar sentido a partir do que recebemos do mundo.  No encontro cotidiano com os fatos, situações e cenários do mundo, os momentos em que nos entregamos à beleza da natureza ou da arte.  Insiro nesta categoria, também, o encontro de vínculos profundos – todos estes exemplos, costumo exemplificar a meus pacientes com uma palavra com raízes árabes e judaicas:  SERENDIPITY.  Uma das traduções possíveis seria: ALGO ou ALGUÉM, que após cruzar o curso de minha vida, modifica todo o restante de meu existir. 

Quando realizamos este sentido a partir de alguém, diz respeito aos vínculos pelos quais nos sentimos profundamente responsáveis e conscientes.  Pode ser através de uma amizade que levamos pela vida afora, relacionamentos conjugais de profunda comunhão, um filho que nos chega e promove um SERENDIPITY.  A relação de vínculo que leve a um profundo pertencimento de sentido – não de posse!

Quando realizamos sentido ao experienciar algo pode ser, por exemplo, um momento de vivência tão plena de sentido que nos leve a compreender algo essencial da existência, mudando-nos para sempre.  Ilustro com este exemplo pessoal:  Certo dia, em uma praça, estava sentada em um banco observando um céu muito azul no mês de junho e vários ypês rosa, haviam acabado de formar seus buquês poéticos. De repente, em uma brisa contínua, as flores começaram a chover... ritmicamente, sendo uma cena simplesmente maravilhosa... fiquei profudamente grata por estar ali, naquele momento, para receber aquele presente... e esta alegria foi crescendo e de repente me passou: “morrer é assim... estarmos presos a um buquê da vida e, em uma brisa, no momento oportuno, rodopiar no universo...”.  Simples assim... Plenitude e paz. Esta vivência levou a uma imagem e a um simbolismo que me acompanha por toda existência.  Serendipity.

 Frankl descreve, quando se trata de fato de uma oportunidade de realização de valores vivenciais, que observamos em geral estes elementos:

Ser um momento de “maravilhamento ou êxtase”, uma comoção profunda que nos toca em uma dimensão de plenitude.

♦ Permite um momento de transcendência, ou seja, um momento em que conseguimos sentir uma percepção ampla e de todas as coisas, que pode durar frações no tempo cronológico, mas conseguem reorganizar nosso modo de apreensão da realidade e mudar nossa escala de prioridades e modos de reação à vida que nos cerca.

 A partir desta autotranscendência, ocorre um autodistanciamento e passamos a aplicar o que sentimos no olhar a outras situações mais amplas, em outros contextos. 

Deste modo, sentimos a vida plena de significados e sentidos!

2)  Valores Criativos: Realizar sentido a partir do que deixamos no mundo – Qual sua marca? Qual será sua obra?

Uma frase de Frankl expressa com seu humor característico a diferença entre executar tarefas ou nelas realizar sentido: “há uma grande diferença entre uma pessoa que lava a louça e aquela que lava a louça e seca a pia”.  Muitas vezes peguei-me refletindo sobre isso ao estar lavando louça... e conversei com meus filhos em diversos momentos, com resultados muito interessantes...

Os valores criativos não significam realizar grandes obras e mudar o mundo a partir de uma ação, mas sim o carinho e atenção dedicados em cada simples ato cotidiano.  Estar com o outro superficialmente ou ESTAR com o outro em profundidade. 

Um ditado árabe interessante para o trabalho terapêutico e para as relações pessoais: OUVIR é com os tímpanos... ESCUTAR é mais profundo... (mais profundo e também mais pro  fundo... de nossa alma e essência, onde acontece o encontro verdadeiro).

Exemplos:

Quando pensamos em trabalho, sempre exemplifico para meus pacientes, que realizar valores criativos significa sentir que suas ações podem ter um caráter único, pessoal e intransferível.

Veja bem:  isto não quer dizer que seríamos insubstituíveis, mas sim que ao estarmos naquela função, responsáveis por aquela ação, que tenhamos uma consciência de estarmos por inteiro, dando nosso melhor, nossa contribuição mais essencial.  É o meu melhor, pleno e possível.  Assim realizamos sentido.  Depois, um dia, em meu lugar pode vir outra pessoa que faça algumas coisas até melhor do que eu conseguia, mas o importante é que enquanto fui o agente da ação, eu estava plena e integralmente em minha dedicação. 

Este é o trabalho que realiza sentido.

Há funções privilegiadas  em realização de sentido:  os trabalhadores da educação, as áreas terapêuticas e ligadas ao atendimento em saúde e os trabalhos voluntários.  Mas um funcionário público também pode colocar sua gentileza e sensibilidade em cada atendimento e sentir que fez sua contribuição criadora mesmo em uma função burocrática.  Gentileza gera gentileza – e é esta a revolução silenciosa que precisamos cultivar para as mudanças relacionais que tanto almejamos e precisamos no mundo que nos cerca, no mundo que desejamos viver.  Tudo começa pela pequenas atitudes, pelos pequenos gestos que podem carregar a realização de valores criativos e plenos.

3)  Valores de atitude: Realizar sentido frente ao sofrimento inevitável.  Este é um dos mais especiais – e também o que as pessoas mais custam a compreender.

Frente a situações limite, onde são restritas suas possibilidades de escolha, é possível realizar sentido de vida nos valores de atitude. Frankl sintetiza esta abertura em sua célebre frase “não temos liberdade DE, mas sempre temos liberdade PARA”.

Não temos LIBERDADE DE escolher a família em que vivemos, as situações e fatos de nossa vida – por exemplo, ele não escolheu nascer judeu em uma Europa que estava em ebulição com o anti semitismo e naquele espaço e tempo histórico que produziu o holocausto nos campos de concentração. Mas teve LIBERDADE PARA decidir a cada dia como iria passar e se posicionar frente à realidade que o cercava.  Mesmo prisioneiro, a LIBERDADE PARA decidir suas reações não estava sob comando dos oficiais da SS nazista.  O livro EM BUSCA DE SENTIDO é precioso na condução desta compreensão.

Trata-se, independentemente das situações ou condições de vida, da liberdade de nos posicionarmos frente a tudo.

Na existência de TODOS NÓS, nos momentos de FINITUDE ou de PROFUNDA IMPOTÊNCIA, somos convidados a um processo de reorganizar nossas verdades, nossas crenças, revisitar o que é essencial e o que é efêmero.  O que será transitório e o que será duradouro.

No trabalho terapêutico, costumo brincar que seria necessário nos prepararmos para algumas coisas antes de precisarmos usá-las... e este preparo diz respeito à capacidade de compreender a existência e o que é essencial em nossa dimensão mais sensível.

Neste momento lembro-me de meus pacientes oncológicos e o processo de conscientização da morte, com a paz crescente que se desenvolve no decorrer do tratamento. 

Após tratamentos oncológicos complexos, temos vários relatos sobre a consciência do que foi difícil nas etapas do processo, mas também há relatos sobre algo essencial que foi vivenciado durante o sofrimento inevitável, a quebra de ilusão de controle sobre a vida, a percepção do que seria essencial neste viver.  Esta vivência produz várias versões desta sensação:  o câncer foi ao mesmo tempo a pior e a melhor coisa que aconteceu em minha vida.  Esta é a indicação que há realização de compreensão de sentido de vida quando nos sentimos impotentes também, quando vivemos conscientemente a possibilidade de finitude. 

Sem sombra de dúvidas, estes pacientes são PRESENTES que recebemos. 

O processo deste tipo de compreensão é também SERENDIPITY...

Outra situação preciosa e sensível são os pacientes em luto.  O valor de atitude desenvolvido em uma mãe que perde um filho, precisa buscar raízes na compreensão da existência muito além do que as religiões disponíveis conseguem alcançar.  São processos intensos, profundos e muito especiais. 

A Logoterapia de Viktor Frankl fornece elementos imprescindíveis para o diálogo terapêutico em situações sensíveis como tentativas de suicídio, envelhecimento, luto e morte a partir de sua grande característica de reflexão sobre elementos essenciais e de ser PROSPECTIVA quanto às possibilidades SEMPRE de realização de sentido. 

Sobre a autora:

Daniela M. Fuschini Favaro é psicóloga, gestora da clínica CICLOS - Espaço terapêutico.

Especialista em Logoterapia aplicada à Educação,

Integra o corpo docente da pós graduação do IECVF - Instituto de Educação e Cultura Viktor Frankl de Ribeirão Preto/SP.  

Atua na área fenomenológica de base humanista e existencial, sendo Viktor Frankl um dos autores de referência em sua formação. Mais informações, consulte  Corpo Clínico / Psicologia neste site.

 

Bibliografia:

FRANKL, V.E. – Em busca de sentido.  Petrópolis:  Vozes, 37ª ed, 2015.

LUKAS, E. – Histórias que curam... porque dão sentido à vida.  Campinas:  Verus, 2005.

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