Birra e seu desencadeamento - Ciclos - Espaço Terapêutico
Birra e seu desencadeamento

Neste texto fantástico você compreenderá melhor todos os elementos da birra. Este é um comportamento típico de crianças pequenas, principalmente entre 1 e 5 anos, sendo uma reação à elaboração frente ao NÃO, à frustração e aos limites necessários em algumas situações. Costumo brincar no consultório que pais que digam nunca terem enfrentado este comportamento nos filhos, os terceirizaram (para avós, babás ou outros cuidadores...). Então aproveitem para compreender as características e apliquem as estratégias. Efeito garantido!

Boa Leitura!
Daniela Favaro

 

Birra e seu desencadeamento

Autora: Maria Aparecida Fuschini Alaggio

Psicóloga Clínica

O que é?

A birra é uma ruptura no relacionamento. Através dela, o birrento impõe a outra pessoa uma condição: “Se você me atender, ótimo. Caso contrário, vai sofrer muito”.

Quando acontece?

A birra é desencadeada quando houver:

a) Baixa tolerância à frustração;

b) Inconstância disciplinar;

c) Indulgência exagerada.

Por que acontece?

A birra é a dificuldade de aceitar um limite, a criança reage de forma agressiva e persistente até conseguir o que quer, expondo os pais a situações desconfortáveis, não importando onde e nem como. O sucesso da birra é conseguir que os pais cedam, lembrando que o sucesso de uma birra alimenta a próxima.

Quando a criança consegue atingir seu objetivo, mesmo que lhe digam “não”, ela descarrega dopamina, substância que produz bem-estar e prazer. O cérebro registra esse prazer como uma recompensa ao esforço feito, e é esse sistema de recompensa que alimentará a próxima birra.

É importante o adulto agir frente a esse comportamento?

Sim. Quando a criança não consegue o que quer, ela poderá mudar de objetivo, já que não houve a recompensa desejada. Com isso, a mãe/o pai deixa de desrespeitar as próprias proibições impostas à criança e passa a ser respeitada(o) por ela.

Tratamento e estratégias: 7 pontos importantes

1) É preciso ter uma atitude correta, firme e calma por parte da família.

2) Observar se há divergências educacionais entre os pais ou demais familiares, que deverão ser resolvidas entre si, nunca na presença da criança.

3) Se houver inconstância educacional, os pais deverão ser orientados no sentido de impor uma disciplina constante e amável, em função das situações de birra enfrentadas e não dos seus problemas pessoais.

4) Em caso de superproteção, orientar no sentido de permitir que a criança se desenvolva de acordo com as suas próprias possibilidades.

5) Quando a etiologia for imitativa, a solução será o tratamento da pessoa a quem a criança imita.

6) O melhor meio de desarmar uma birra é não atender nada do que for exigido por essa estratégia.

7) A birra não é obrigar o outro a fazer o que o birrento quer? Dessa forma, significa que o birrento está dependendo do outro. Assim, cabe ao outro não permitir o êxito da birra. Isso porque, a vitória do filho birrento depende dos pais ou de outros adultos que lhe permitiram essa vitória.

Como desmontar o esquema de birra

Para desmontar esse esquema, é produtivo o seguinte método educativo:

a) coerência

b) constância

c) consequência

- Coerência – é o fundamento principal que deverá ser adotado pelos pais no momento do enfrentamento da birra. Ex: Se a mãe não aceitar a birra, mas se o pai, ou qualquer outro parente ou cuidador, aceitar, os adultos estarão sendo incoerentes.

- Constância – significa que o enfrentamento deverá acontecer sempre, não importando onde, quando e nem por qual motivo. Ex: Se os pais aceitarem a birra só porque têm visitas, eles estarão sendo inconstantes.

- Consequência – é um dos ensinamentos mais importantes, pois tudo que fazemos gera consequências. A pessoa é responsável pelas consequências que seus próprios atos provocarem. Quanto menor a idade do birrento, mais imediatas terão de ser as consequências. Assim, nunca será produtivo aplicar a consequência à noite, em casa, sobre aquilo que a criança “aprontou” de manhã. Se a birra ocorrer em casa, é indicada a estratégia de (i) escolher um lugar onde o birrento terá que ficar parado, (ii) esclarecer à criança o porquê desse “stand by” e (iii) voltar, após um breve período de tempo, ao local escolhido para refletir e combinar o que for necessário com a criança. Vale ressaltar que a criança só poderá sair do lugar após ter refletido e combinado as condições com o adulto e que, quanto menor for a criança, maior será a necessidade da presença do adulto por ela responsável para mediar as causas, consequências e combinados.

Como lidar com a birra

Vamos ilustrar com uma situação: Iniciada a birra, a mãe/o pai chega até a criança, agacha e fita firmemente seus olhos - fazendo com que a criança também olhe diretamente os seus olhos - e diz, com voz calma e firme, baixa e grave, sem gritar: “Você está sendo mal educado porque está desobedecendo a mamãe/o papai. Pare de ser mal educado e obedeça”. Se estiver em casa, é importante retirar a criança da sala ou do local de brincadeira e transferi-la, preferencialmente, a um local onde ela possa se sentar e ficar isolada de outros estímulos, onde fique geograficamente demarcado que ela está retirada da convivência ou do momento de brincadeira. Caso a criança não fique para essa pausa, o adulto poderá se sentar com ela, ficar um período em silêncio, e depois conduzi-la à reflexão.

Não chame esse momento de “castigo”, pois lhe daria um caráter punitivo. Trata-se de uma necessidade de relembrar o limite, ou aquilo que é essencial respeitar ou combinar/acordar. Por isso, pode ser chamado de “momento da reflexão” ou ir para "o cantinho de pensar". Ao mediar a causa e a consequência para crianças de 3 a 5 anos, lembrá-la qual foi o motivo dela estar ali, naquele lugar e que ela só sairá dali quando houver um novo combinado para aquela situação ocorrida. Antes de liberar a criança, construa o hábito de a própria repetir o porquê dela ter ficado naquele lugar, bem como a reparação daquela situação que ela mesma cometeu. Além disso, a criança deverá aprender a reconhecer o seu erro, pedindo desculpas, arrumando o que desorganizou, ou realizando aquilo que eventualmente já havia sido combinado com o adulto.

Feito isso, ninguém deve ficar remoendo sobre as consequências. Então converse normalmente com a criança, não tente agradá-la, nem se “feche” para ela. Provavelmente a criança testará o limite ou o combinado em outras situações, para ver se o adulto realmente aguentará aplicar todas as consequências acordadas/combinadas. Mas lembre-se, o adulto tem que mostrar constância.

Importante: esse método só funciona quando for CONSTANTEMENTE (sempre) aplicado e cumprido, isto é, não admite exceções. Ex: O método deverá ocorrer em shopping, supermercado, etc., nesses casos, de birra em locais públicos, procure deixar a criança bem próxima à mãe/ao pai, ou perto do carrinho de compras. Não é preciso a mãe/o pai fazer escândalo, basta que seja firme por meio do uso da coerência, da constância e da consequência a ser aplicada.

Reflexões preciosas:

- Os birrentos não são crianças más, eles simplesmente querem o que querem e ainda não têm maturidade cerebral suficiente para conseguir o que desejam de maneira adequada.

- Quanto mais as crianças se empenham na birra, mais inadequadas e inconvenientes se tornam, porque o método utilizado é o da “tirania” da imposição pelo grito, que visa submeter os pais às suas vontades.

- O que os pais devem ensinar aos filhos birrentos é que eles conseguirão melhores resultados se usarem meios mais adequados, sobretudo para a vida fora de casa.

- Por que os birrentos não fazem birras com estranhos? É mais que claro que estranhos não vão se perturbar ou se aborrecer com um birrento desconhecido.

- Deve-se ter em mente que a birra não conquista a felicidade, pois essa não deve vir acompanhada de sofrimentos e sacrifícios de outras pessoas.

- A importância em construir essa maturidade relacional com seus filhos refere-se a esta realidade: “o mundo não atenderá às suas vontades imediatamente, nem infinitamente! Nem enquanto forem pequenos, nem quando crescerem! Portanto, crianças que não possuem adultos à sua volta para lidar melhor com limites, frustrações e espera, tendem a se tornarem adultos com intolerância à frustração, transtornos de ansiedade, ou até mesmo, depressão”.

OBS: A base desse texto deve-se aos ensinamentos do ilustre Dr. Içami Tiba, psiquiatra e psicodramatista, que, através de suas palestras e livros, discorre brilhantemente sobre o tema “limites e disciplina”.

Contato

Rua Lourenço Dias, 735, Centro, Araras/SP - CEP: 13600-180

(19) 3542-0444 / (19) 3542-0340 / (19) 99240-9377

ciclos_araras@hotmail.com

Ciclos no Facebook