Conversando sobre desfralde - Ciclos - Espaço Terapêutico
Conversando sobre desfralde

Desfralde, controle esfincteriano, treino de toalete são os termos para descrever o momento de ajudar a criança a conquistar de forma natural e saudável sua autonomia para não necessitar mais de fraldas.  Neste texto, vamos refletir sobre fatores envolvidos, as linhas de sugestões de pediatras e especialistas para não ser um momento de stress no ambiente que cerca a criança.

Boa leitura!!  

 

Conversando sobre desfralde

Autora: Daniela M. Fuschini Favaro

Desfralde é tema de estudo da pediatria e da psicologia do desenvolvimento, onde encontramos linhas e correntes diferentes sobre a idade ideal ou traumática para este processo.    As principais dúvidas giram em torno de:

Existe uma idade ideal?

Há técnicas indicadas?

Basta deixar à vontade quanto à livre demanda da criança?

Nada melhor que a ampliação de conteúdos e reflexões para compreendermos a complexidade deste momento no desenvolvimento infantil. 

Vamos refletir sobre estes fatores:

Maturidade orgânica, desenvolvimento biológico e neuromotor da criança;

Desenvolvimento cognitivo: linguagem, consciência corporal e nível de compreensão da criança sobre o desfralde;

Maturidade orgânica: desenvolvimento neuromotor da criança.

A criança passa dos zero aos 7 anos por sucessivas fases de organização neurológica, motora e cinestésica que segue um desenvolvimento de ordem biológica.  A possibilidade de controle esfincteriano necessária no desfralde acontece em determinadas condições deste desenvolvimento.  Veja a sucessão de aquisições neuromotoras do início da infância, com as faixas etárias aproximadas:

Em torno de 3 a 4 meses: A criança, quando colocada de bruços começa a levantar o pescoço, demonstra maior mobilidade para virar seu olhar a sons, objetos ou estímulos.

6 a 8 meses: O tronco ganha maior tonicidade e a criança conquista a possibilidade de sentar-se sozinha.  Este momento, literalmente, revoluciona seu eixo de observação do ambiente que a cerca. 

9 a 11 meses: A tonicidade e coordenação neuromotora permitem o início do processo de engatinhar.  Articular braços, pernas em movimentos coordenados para se movimentar e alcançar objetos.

11 meses a 18 meses:  Período em que a maioria das crianças começam a andar.  Neste momento, um ciclo importante da tonicidade e coordenação motora é alcançado.  Conseguir ficar em pé, sentar, abaixar, levantar são processos significativos. 

Chegamos ao primeiro ponto de divergência sobre o controle esfincteriano:  Há linhas que julgam que ao andar, neurologicamente as crianças já passam à capacidade de controlar os esfíncteres (músculos pélvicos ligados  ao mecanismo de reter / liberar a urina ou as fezes), que afirmam que o desfralde "tardio" causa dificuldades nas crianças.  Nestas linhas, o paradigma é que "quanto mais novo, melhor".

Preferimos ponderar que este momento de aquisição neuromotora é condição NECESSÁRIA, mas nem sempre SUFICIENTE para a criança fazer um desfralde sem consequências negativas de encoprese (retenção / escape de fezes) ou enurese (retenção / escape de urina).  Passamos então a outra área complexa relacionada a esta fase de desenvolvimento.

Desenvolvimento cognitivo:  consciência corporal, linguagem e estratégias de desfralde.

O desenvolvimento cognitivo ligado ao desfralde correlaciona-se com os seguintes fatores:

Consciência corporal: Além da possibilidade motora de reter / liberar a urina ou as fezes, é muito importante que os cuidadores envolvidos observem se a criança consegue perceber conscientemente os sinais de seu corpo sobre a “vontade” de ir ao banheiro – ou seja, a sensação de bexiga cheia ou o momento de defecar.  Esta conscientização é o divisor de águas em um desfralde com ou sem dificuldades e resistências por parte da criança.  Ressaltamos a complexidade deste momento: trata-se de perceber sinais em meu corpo e segurar /  liberar; reter / relaxar em momentos específicos, o que nos leva ao próximo

Linguagem: Observamos que o desenvolvimento de compreensão e expressão que a criança tenha conquistado até este momento determinam a qualidade da condução do desfralde por parte dos cuidadores.  Havendo esta compreensão, podemos utilizar livros de histórias, jogos e imagens para a criança compreender que a urina e as fezes são uma produção de seu corpo.  Há muitos casos em que a criança conquista o desfralde relacionado à urina e apresenta dificuldades no desfralde de evacuação, por ser maior a possibilidade de retenção esfincteriana das fezes.  Nestes casos, em consultório costumamos usar vários livros sobre o tema e as imagens de um jogo chamado “a viagem do hambúrguer”, que possui um tabuleiro que permite visualizar todo o caminho que os alimentos percorrem até a evacuação.  PORTANTO: após a conquista neuromotora de andar e controlar meus movimentos, após a consciência corporal que pode permitir a percepção de minhas necessidades orgânicas, é de suma importância que a criança compreenda o que está acontecendo:  o corpo produz estes dejetos que preciso eliminar.  Há crianças que lidam com extrema negação a necessidade de ir ao toalete para urinar ou evacuar – o que pode levar a quadros severos de retenção de fezes que a pediatria acompanha através de exames.  Portanto, o nível de linguagem nos permite naturalizar a compreensão da alimentação, digestão e evacuação.

Estratégias de desfralde: geralmente as crianças possuem maior facilidade em iniciar o desfralde da urina.  A indicação geral é deixar a criança sem fraldas e leva-la ao penico ou assento adaptado no vaso sanitário em períodos determinados, para a criança treinar este momento de “liberar” a bexiga. Geralmente, após alguns dias, é comum a fralda ficar seca após algumas horas.  O treino relacionado à evacuação exige paciência e diversidade de estratégias.  Observar os horários em que a criança costuma evacuar e leva-la próximo a estes momentos ao toalete e, ao esperar, criar um elo lúdico que pode envolver contar histórias de livros, cantar, conversar sobre assuntos diversos e também sobre a sensação corporal ligada à evacuação, para aumentar a consciência corporal da criança.  Após um período, se notar cansaço ou impaciência, propor sair para outra atividade e VOLTAR dali há um tempo.  Caso ocorra escape fora do toalete, importante não haver caráter punitivo, mas sim resolver a higiene garantindo que no próximo dia haverá novas tentativas.  Calma e paciência são fundamentais e necessárias para o desfralde bem sucedido.

As pressões sobre o desfralde:

Com a escolarização precoce das crianças, temos pressões por regras de escolas e de algumas linhas de pediatras.  Vamos analisar os argumentos.

Em berçários infantis, há estrutura para necessidades de crianças de zero a 3 anos relacionadas à alimentação, sono, banho e troca de fraldas.  Já as escolas de ensino infantil, não possuem a estrutura de berçário e, desde que  passaram a admitir crianças completando 2 anos no primeiro semestre do ano letivo, tem sido comum a “norma” de realizar o desfralde como condição de admissão de matrícula. 

Voltando ao nosso argumento: começando a andar até os 18 meses, a criança pode apresentar condições neuromotoras de controle esfincteriano – e, de fato, há relatos de crianças que solicitaram aos pais a retirada das fraldas e passaram sem complicações ao uso de penico ou de assento adaptado no vaso sanitário.  Porém, em casos não espontâneos por parte da criança e quando ainda não se deu a consciência corporal ou a compreensão do processo de produção e necessidade de eliminação de dejetos, temos casos de severo sofrimento para fazer o desfralde antes da faixa etária de 3 anos. 

Esta é a razão de muitos urologistas pediátricos chamarem o desfralde em torno de 2 anos de “desfralde precoce”, apontando este fator como uma das principais causas de infecção urinária de repetição em crianças, geralmente relacionadas com retenção fecal que interfere na retenção urinária e causa os sintomas.  Segundo artigo de renomados especialistas:

“No contexto brasileiro, provavelmente bastante semelhante ao de outros países ocidentais, observamos que boa parte das tentativas malsucedidas de retirada de fraldas teve início antes dos 18 meses. Em nossa análise ajustada, tentativas prévias sem sucesso de retirada de fraldas, por sua vez, estiveram associadas a uma menor chance de estar sem fraldas aos 2 anos. Em resumo, nossos resultados sugerem que o início do treinamento antes dos 18 meses pode acabar por retardar a aquisição do controle esfincteriano. Por outro lado, não temos dados relativos a outras culturas, onde se relatam estratégias completamente diferentes. Evidência de que essa estratégia poderia ser utilizada num contexto cultural ocidental ainda é limitada. Nossas preocupações sobre efeitos adversos do treinamento esfincteriano não se restringem ao início precoce, mas envolvem diversas formas de treinamento inadequado, que incluem o início tardio do treinamento, não-uso de redutor para o assento do vaso, não-uso de apoio para os pés, assim como atitudes coercitivas e punitivas.” (TALI et al,  2009)

Portanto, a maioria das crianças começa a andar até os 18 meses, mas o desfralde baseado na maturidade orgânica, aquisição de linguagem (compreensão e expressão) e consciência corporal ideais para o desfralde se encontram de forma diversificada na faixa entre 2 e 3 anos de idade – fatores que levam alguns especialistas a considerarem normal, adequado e saudável um desfralde completo até os 4 anos.

Bibliografia:

Tali, Sahar, Schramm-Urbach, Efrat, Boucke, Laurie, Rugolotto, Simone, Treinamento esfincteriano. Jornal de Pediatria [en linea] 2009, 85 (Enero-Febrero) : [acesso em: 7 de janeiro de 2018] Disponível em:<http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=399738168016> ISSN 0021-7557

Pdf:  http://www.redalyc.org/pdf/3997/399738168016.pdf

Contato

Rua Lourenço Dias, 735, Centro, Araras/SP - CEP: 13600-180

(19) 3542-0444 / (19) 3542-0340 / (19) 99240-9377

ciclos_araras@hotmail.com

Ciclos no Facebook