O Luto e o Despertar - Ciclos - Espaço Terapêutico
O Luto e o Despertar

O homem é o único ser que sabe que um dia irá morrer e vive como se isto nunca fosse acontecer...

Em nossa cultura moderna e ocidental temos poucos contos que possam nos ajudar nos períodos de enfrentamento de luto. O ciclo da vida que se encerra é algo que negamos culturalmente – mas isto não impede o processo natural da vida.

Então o convido a se deixar conduzir por este conto budista que apresenta as etapas necessárias para a elaboração do luto.

Há um conto antigo da Índia sobre o caminho de iluminação de Krisha Gotami. Li esta narrativa há muitos anos, e este conto passou a ser ferramenta de ajuda nos processos de luto junto a meus pacientes.

Cada vez mais sou uma terapeuta contadora de histórias! Trago a vocês meu modo de contar esta.

Boa Leitura!
Daniela Favaro

O luto e o despertar

Um dia Krisha acordou e viu que seu pequeno filho de 2 anos havia morrido. Desesperada, pegou-o no colo e foi às ruas de sua vila buscar ajuda. Encontrando as pessoas, recebeu todo tipo de reação:

Quem a olhou com compaixão...

Quem desviou os olhos, por não desejar entrar em contato com a realidade...

Quem a olhou como se tivesse enlouquecido...

Houve quem a olhou com impotência.

Alguém sugeriu que fosse buscar ajuda com o ancião da vila.

E ela foi. Contando sua história e sua busca, ouviu do ancião: "se alguém pode ajuda-la com esta questão, é o príncipe Sidarta". Sidarta Gautama era vivo nesta época e já havia atingido o estado búdico – que significa "o desperto", "o iluminado".

Krisha seguiu a trilha que levava à sua morada. Perguntou por ele e o achou. Ao colocar o corpo do filho à sua frente, contou sua história e pediu ajuda.

Buda compreendeu a questão e afirmou que poderia ajuda-la após realizar uma tarefa: precisaria trazer a ele apenas três grãos de mostarda, ganhas de alguém em cuja casa nunca a morte houvesse passado.

Krisha voltou à sua aldeia e bateu de porta em porta, contando sua história e pedindo os três grãos de mostarda...

Houve quem tivesse os grãos de mostarda, mas estes não serviriam, pois no último mês haviam perdido alguém querido...

Houve quem não tivesse os grãos de mostarda, mas mesmo se tivessem seriam de pouca valia, pois há certo tempo e em outro ainda...

Ao pôr do sol daquele dia ela compreendeu e sepultou seu filho, depositando todo carinho neste ato.

Passou a noite em claro e - ao raiar do próximo dia - decidiu ir até Buda novamente.

Ao vê-la, Buda sorriu e estendeu a mão dizendo "trouxe-me os grãos de mostarda?" e ela respondeu:

- Não... fiz minha tarefa plenamente e o sepultei ontem à tarde.

Buda permaneceu em silêncio, em um momento de grande compaixão pelas mães do mundo. Depois perguntou porque havia voltado. Krisha respondeu:

- Sabe, de fato foi de muita ajuda... pois em minha tarefa compreendi que a morte sempre passou por meu vilarejo! Tantas histórias, tantos acontecimentos... e percebi que estava adormecida para esta realidade. Mas após tudo o que compreendi, preciso de sua ajuda para aprender a viver sem adormecer novamente!

E, diz a lenda, Krisha Gotami começou seu caminho de iluminação e conheceu o estado búdico.

SOBRE A PERCEPÇÃO NAS TRADIÇÕES RELIGIOSAS

Ao contrário do que pensam muitos ocidentais, Buda não é um Deus nem diz respeito a uma pessoa em especial. Vem a ser um estado de plenitude e de percepção da existência e da vida. O sagrado nas tradições orientais está mais ligado à plenitude e percepção da verdade da existência.

Existe apenas uma verdade e o que muda é o ponto de vista que cada ser humano consegue compreender e expressar quanto a ela. Neste raciocínio, Jean Yves Leloup descreve que podemos pensar na fonte de todas as tradições religiosas como um sol, apenas uma fonte de verdade – que sempre nos traz a missão do amor, compaixão e comunhão. Os raios deste sol que chegam até cada um de nós podem ser vistos como as religiões criadas pelos homens para tentar explicar as verdades que cada grande representante das tradições religiosas.

Pense em todos os grandes referenciais das tradições religiosas que você já ouviu falar. Sim, cada um é um raio do mesmo sol... mudam apenas as linguagens dos homens para cada cultura e para cada época... mas a mensagem é a mesma.

SOBRE AS FASES DO LUTO

Neste conto aprendemos um pouco sobre as fases do luto: irrealidade, negação, tristeza, compreensão, aceitação.

Ao perdermos alguém especial em nosso relacionamento, passamos de formas diferentes por estes processos:

#1) Irrealidade: o momento da despedida, o retorno à rotina quando parece que a pessoa aparecerá no cenário de convivência, ou quando toca o telefone parece que vamos falar com a pessoa, ou ainda a sensação de que está viajando e chegará em breve. Cada dia ao acordar, relembrar os dados de realidade e - durante um período - chorarmos nestes eventos como se estivesse acontecendo tudo de novo. A sensação varia da anestesia ao choque de realidade.

#2) Raiva ou negação: momento em que alguns brigam com a "lógica" da vida; perguntas que caem em um vazio de respostas: por que isso foi acontecer? por que neste momento? por que com esta pessoa? - este é o período em que alguns fragilizam sua fé religiosa, ou se apegam aos fatos para buscar focos onde depositar sua frustração. As ações médicas, ou de resgate, ou questionando tratamentos de saúde. A sensação é de busca de compreensão, mas pode representar a tentativa de retorno às ilusões de controle.

#3) Tristeza profunda: passa-se por um período de dúvida sobre o reestabelecimento da rotina, da vida. Neste momento é significativo analisar a qualidade e profundidade das relações afetivas da pessoa em luto, o quanto já possui ou não um percurso de sentido de vida consciente (participar de algum projeto, ou comunidade em torno de um objetivo comum). Caso esta fase demore muito a passar, pode sinalizar uma necessidade de tratamento de quadro depressivo. A sensação é de que a vida "nunca mais será a mesma".

#4) Retomada de atividades: mesmo sentindo que "nunca mais sorrirá" verdadeiramente, a pessoa retoma suas tarefas, volta às suas rotinas e, com o tempo, sua vida se reestabelece. A sensação predominante nesta fase é de superação, que alimenta reflexões importantes acerca da existência e do aproveitamento de seu tempo existencial.

#5) Elaboração do Luto: após a vivência consciente das fases anteriores, a pessoa tem a oportunidade de compreender o processo existencial de outra perspectiva.

Após momentos de luto podemos chegar a pontos de compreensão sobre o viver, sua essência e sua potencialidade. Jean-Yves Leloup afirma que "apenas o que é aceito pode ser transformado" – mas já aviso que aceitar não significa concordar com o que aconteceu... nem não sentir... Aceitar significa "parar de brigar" com o fato.

Quem deseja uma vida longa nesta existência enfrentará muitos momentos de luto!

Dicas de vídeo:

"A morte ensina a viver", com a médica Ana Claudia Arantes - https://www.youtube.com/watch?v=MWwbYmGaDm

Em apenas 3 minutos este vídeo sintetiza o potencial de elaboração que a morte pode trazer à nossa reflexão.

No Youtube você encontrará entrevistas e TEDs muito especiais com esta profissional, que merece ser acompanhada de perto.

Dicas de autores e livros:

A suiça Elisabeth Kübler-Ross é uma referência internacional neste tema.

» KÜBLER-ROSS, Elisabeth. Sobre a Morte e o Morrer. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1969.

» KÜBLER-ROSS, Elisabeth. Morte – estágio final da evolução. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 1975.

» KÜBLER-ROSS, Elisabeth. Perguntas e respostas sobre a Morte e o Morrer. São Paulo: Martins Fontes, 1979.

» KÜBLER-ROSS, Elizabeth. A morte: um amanhecer. São Paulo: Pensamento, 1991.

» KÜBLER-ROSS, Elisabeth. A roda da vida: memórias do viver e do morrer. Rio de Janeiro: GMT, 1998.

Pesquise também a brasileira Maria Júlia Kovács, nossa autora mais significativa para o tema.

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