Espera confiando no Tempo... - Ciclos - Espaço Terapêutico
Espera confiando no Tempo...

Autor: Alexandre Rampin
Psicólogo Clínico

Neste texto, Alexandre nos leva a um tour cultural para pensarmos sobre resiliência, espera e esperança. De Guimarães Rosa a Confúcio... passando por Eclesiastes e Viktor Frankl, vamos acompanhando os registros sobre estes temas. Depois nos brinda com um conto popular chinês maravilhoso - um de meus preferidos - para nos lembrar que os significados mais sutis e mais profundos são tecidos no tempo. O momento oportuno no justo tempo das coisas - e não o do nosso desejo!

Boa Leitura!
Daniela Favaro

A cada dia nos são oferecidas oportunidades para aprendermos e crescermos, a fim de que nos tornemos quem devemos ser. Alguns aprendizados se estabelecem de forma bastante serena, outros, no entanto, de maneira dolorosa. Há situações em que o desespero (ou seja, a "não espera") se apodera de nós e queremos, de maneira imediata, a cessação do sofrimento e a compreensão dos fatos. Porém, as mais preciosas lições existenciais, para se efetivarem, precisam de maturação, à maneira do mármore bruto que recebendo os golpes do cinzel de hábil escultor se transforma, somente mais tarde, em valiosa obra de estatuária.

Esperar confiando no tempo que tudo esclarece, não exigindo compreensões prematuras... Recordo-me da sabedoria de Guimarães Rosa ao dizer que "não convém fazer escândalo de começo, pois só aos poucos é que o escuro é claro". Como é certeira essa afirmação! Tão certeira quanto aquela que está lá no Livro do Eclesiastes, no capítulo 3, versículos de 1 a 7, que dentre outros pontos salienta: "Todas as coisas têm o seu tempo, e tudo o que existe debaixo dos céus têm a sua hora. Há tempo para nascer e tempo para morrer; (...) tempo para chorar e tempo para rir; tempo para se afligir e tempo para dançar; (...) tempo para adquirir e tempo para perder; (...) tempo para calar e tempo para falar (...)".

É preciso deixar o tempo agir para que mais tarde venhamos a descobrir o sentido dos acontecimentos, e até na dor pode haver um sentido, conforme salientou Viktor Emil Frankl, o criador da Logoterapia, ele que sobreviveu a quatro campos de concentração nazistas. Acredito que tenha sido isso que Ludwig van Beethoven deixou claro ao dizer: "Tenho paciência e penso: todo mal traz consigo algum bem". Ou Confúcio quando fala que "toda perda é equilibrada por um ganho, e todo ganho é equilibrado por uma perda". Mas só com o tempo poderemos descobrir um ganho em meio a uma perda.

Considero os livros amigos fiéis, que sempre estão à nossa disposição nos oferecendo a palavra certa nos momentos incertos. Folheando um dos meus muitos livros em um momento de estudo, encontrei uma história que gostaria de compartilhar. Ela exemplifica muito bem o que tento dizer a respeito da necessidade de deixar o tempo agir e não fazer alarde prematuramente.

JÁ VEREMOS O QUE NOS TRAZ O TEMPO (Conto popular chinês)

Há muitos anos, nos tempos do Imperador Tang, em um lugar às margens do rio Yang-Tsé, um dos mais caudalosos da China, vivia uma família de lavradores honestos e esforçados. Com muito trabalho e com a ajuda de um canal que saía do Yang-Tsé, eles plantavam e colhiam; suas colheitas permitiam-lhes viver sem passar necessidade. Um dia, Wang-Chu, o filho da família, entrou em casa gritando:

– Pai, o cavalo baio fugiu, nós o perdemos! Como vamos trabalhar a terra e levar as verduras e os cereais até o mercado da cidade? Que tragédia!

O pai, homem humilde, embora sábio e sensato, respondeu:

– Calma, filho. Por que você chama isso de tragédia? Parece uma má notícia, mas já veremos o que nos traz o tempo.

Depois de pouco tempo, o cavalo voltou acompanhado de uma bela égua selvagem. A alegria do rapaz foi grande: a família havia recuperado o alazão e teria uma nova ajuda para o trabalho.

– Que sorte a nossa, pai! Agora temos dois cavalos que trabalharão nos campos e no transporte – exclamou o jovem entusiasmado.

– Por que você chama isso de sorte? Parece uma coisa muito boa, sim, mas já veremos o que nos traz o tempo – respondeu o pai novamente, com o olhar distante.

Certa manhã, Wang-Chu montou na égua para dar um passeio pelo campo. Mas, mal começou a andar, o animal, que não estava acostumado a sentir o peso de um cavaleiro no lombo, empinou, deu uns pulos, e o rapaz caiu de bruços no chão. Wang-Chu sentiu uma dor muito forte na perna direita e temeu o pior: percebeu que ela havia se quebrado.

– Que má sorte! Terei que ficar algumas semanas com a perna engessada e não poderei trabalhar na lavoura. Que grande desastre! – gemia o jovem, entristecido.

– Por que você chama isso de má sorte? Por que considera um grande desastre? Não se deixe vencer pelo desânimo, meu filho – repetia o pai. – Já veremos o que nos traz o tempo. Os deuses escrevem certo por linhas tortas.

O Imperador Tang, que era um soberano valente e ambicioso, entrou em guerra contra os reis vizinhos para apoderar-se das terras deles e, assim, aumentar seu poder e sua riqueza. Patrulhas de soldados percorriam as cidades, os povoados e as aldeias para recrutar jovens para a guerra e alistá-los no exército imperial.

Os soldados chegaram também ao vale do rio Yang-Tsé e chamaram à porta a família Chu, enquanto eles almoçavam. Eles viram o pai idoso e pensaram que, pela idade dele, não era útil para as armas. Ao verem Wang-Chu deitado numa cama, gritaram-lhe:

– Você, rapaz, levante-se e venha conosco! Sua majestade precisa de você para servir nas tropas imperiais. Faça uma trouxa com suas roupas e siga-nos.

O jovem mostrou-lhes a perna imobilizada e engessada.

– Vejam como está minha perna. Eu não só seria de pouca utilidade para o exército do Imperador, como seria um problema para vocês. Só posso andar com a ajuda de muletas. Devo permanecer em repouso pelo menos durante um mês. Peço-lhes que me deixem em casa. Suplicarei aos deuses imortais pelo sucesso das campanhas do Imperador.

Os soldados não tiveram alternativa a não ser deixá-lo em paz. Pegaram algumas provisões, alimentos e bebidas, que a família Chu lhes deu para a viagem, e partiram para outras aldeias do vale.

Quando os militares já haviam ido embora, o pai disse a Wang-Chu:

– Você percebeu, meu filho? Você viu o que nos traz o tempo. Às vezes, o que é bom se torna ruim, e o que é ruim se transforma num bem. É preciso sempre esperar o dia de amanhã. Só assim descobriremos a escritura certa dos deuses.

A vida segue apenas uma direção: em frente! Nós a compreendemos retrospectivamente, fazendo uma releitura dos acontecimentos passados, mas ela é um avançar contínuo. E nesse caminhar devemos tentar não nos precipitar, seja em atos ou palavras. Elisabeth Lukas, respeitada logoterapêuta, nos lembra que "o que é válido, o que é certo aparecerá. O que é falso e ilegítimo um dia, desmascarado pelo bom senso, se revelará absurdo".

Portanto, é preciso sempre seguir, com liberdade e responsabilidade, aguardando o que nos trará o tempo.

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